
Estreada em 23 de setembro de 2026, a série criada por Luiz Villaça, Leonardo Moreira e Donna Oliveira mistura drama jurídico, suspense e melodrama brasileiro para contar uma história que rapidamente deixa de ser apenas sobre um crime. Inspirada em casos reais de revisão criminal e no trabalho do Innocence Project Brasil, a produção coloca no centro da narrativa uma pergunta incômoda: e quando a própria Justiça erra?
É justamente aí que a série encontra sua força.
Marjorie Estiano em uma personagem cheia de feridas
No centro de tudo está Inez Franco, vivida por Marjorie Estiano. Professora de Direito respeitada, Inez abandonou os tribunais depois de um episódio traumático ocorrido durante um julgamento. Oito anos depois, ela decide voltar ao universo da investigação criminal de uma maneira diferente: formando um grupo de alunos para revisar condenações e tentar encontrar provas capazes de mudar histórias que pareciam encerradas.
Marjorie entrega uma protagonista que está longe de ser uma heroína tradicional. Inez carrega culpa, dúvidas e fantasmas do passado. Sua determinação em buscar a verdade não apaga as decisões que tomou anteriormente — e é justamente essa contradição que torna a personagem tão interessante.
A atriz consegue transmitir muito sem precisar transformar cada cena em um grande discurso. Há uma tensão permanente na personagem, como se cada novo caso também a obrigasse a investigar a própria história.
Any Gabrielly é uma das grandes surpresas
Se Marjorie Estiano conduz a série com experiência e intensidade, Any Gabrielly encontra em Marina uma oportunidade de mostrar uma faceta dramática que merece atenção.
Marina é a aluna mais brilhante do grupo de Inez, mas sua participação no projeto não é apenas acadêmica. Existe uma razão pessoal para ela querer descobrir a verdade: anos antes, sua mãe foi presa injustamente — e Inez esteve envolvida no processo que levou à condenação.
A relação entre as duas, portanto, nasce marcada por uma ferida que nunca cicatrizou.
É nesse encontro entre professora e aluna que Habeas Corpus ganha uma de suas melhores linhas narrativas. Existe admiração, desconfiança, ressentimento e, principalmente, uma pergunta que permanece no ar: como confiar em alguém que participou de uma decisão que mudou sua vida?
A química entre Marjorie Estiano e Any Gabrielly é um dos grandes trunfos da produção.
Um caso que parece simples — até deixar de ser
O primeiro grande desafio do grupo é revisar o caso de Jonathan, um jovem condenado pelo assassinato de um homem.
A partir daí, a série começa a desmontar, peça por peça, aquilo que parecia ser uma história já resolvida. Provas, depoimentos, procedimentos policiais e reconhecimentos de suspeitos passam a ser questionados.
E o mais interessante é que Habeas Corpus não transforma a investigação em uma simples caça à prova que inocentará o condenado. O caminho é cheio de dúvidas, obstáculos e dilemas morais.
À medida que os estudantes avançam, eles descobrem que procurar a verdade pode exigir atitudes que também colocam seus próprios limites éticos à prova.
A série acerta especialmente quando mostra que justiça não é apenas ganhar ou perder uma causa. Existe uma vida humana por trás de cada processo, de cada sentença e de cada erro.
O passado volta para cobrar a conta
Como se o caso de Jonathan não fosse suficiente, Inez ainda precisa lidar com pessoas que pertencem ao seu passado.
Entre elas está Murilo, seu ex-namorado, agora atuando do outro lado da disputa. E ele não está sozinho: trabalha justamente ao lado de antigos colegas de Inez, Pedro e Ana.
Esse reencontro acrescenta uma camada pessoal ao conflito jurídico. O tribunal deixa de ser apenas um espaço onde argumentos são apresentados. Para Inez, ele representa também um passado que ela tentou abandonar e que insiste em voltar.
É uma escolha que funciona bem porque impede que a série se transforme em um procedimento jurídico frio e previsível.
Uma Justiça cheia de imperfeições
Um dos aspectos mais interessantes de Habeas Corpus está na maneira como a série aborda os problemas do sistema de Justiça brasileiro.
Confissões obtidas de maneira irregular, procedimentos policiais inadequados, violência policial, reconhecimento de suspeitos e a influência da classe social aparecem como elementos que podem alterar completamente o destino de uma pessoa.
A produção também evita transformar todos os personagens em figuras absolutamente corretas. Em determinados momentos, Inez e seus alunos precisam ultrapassar pequenas barreiras para conseguir respostas. A série não trata automaticamente essas transgressões como atitudes heroicas — e isso deixa os dilemas ainda mais interessantes.
Afinal, é possível cometer uma injustiça tentando corrigir outra?
Nem tudo funciona perfeitamente
Apesar dos seus méritos, a série não é livre de problemas.
Alguns estudantes do grupo de Inez acabam recebendo menos espaço do que poderiam, deixando a equipe um pouco desequilibrada. Além disso, determinadas reviravoltas podem parecer convenientes demais para fazer a investigação avançar.
São limitações que impedem Habeas Corpus de atingir todo o potencial de sua premissa.
Mas elas não anulam o principal: a série consegue criar curiosidade suficiente para fazer o espectador querer descobrir o que realmente aconteceu.
Vale colocar na lista?
Habeas Corpus é uma série para quem gosta de suspense jurídico, mas também para quem prefere histórias nas quais o crime é apenas o ponto de partida para algo maior.
A produção funciona porque não está interessada somente em descobrir quem fez o quê. Ela quer mostrar o que acontece depois que uma decisão judicial muda para sempre a vida de alguém.
E é nesse território que Marjorie Estiano brilha. Ao lado de Any Gabrielly, ela sustenta uma relação carregada de tensão, mágoas e perguntas sem respostas fáceis.
No fim, talvez a maior qualidade de Habeas Corpus seja justamente não oferecer uma Justiça simples, perfeita e organizada. Pelo contrário: a série mergulha em um sistema cheio de falhas e coloca seus personagens diante de uma escolha difícil — continuar acreditando nas verdades já estabelecidas ou ter coragem de questioná-las.
Se você gosta de séries que começam com um crime e terminam levantando dúvidas muito maiores sobre culpa, inocência e verdade, Habeas Corpus merece entrar na sua lista.
Porque, depois que a série começa, fica difícil não querer descobrir se uma condenação pode realmente contar toda a história.



