
A geopolítica global atravessa um dos momentos mais tensos desde a Guerra Fria comercial dos anos 1980. Donald Trump acelera a repatriação industrial e eleva tarifas que respingam nas exportações brasileiras – aço, suco de laranja, etanol. A China, por sua vez, aprendeu a lição americana: em vez de apenas produzir, corre atrás de mercados consumidores e parcerias estratégicas mundo afora.
No centro dessa disputa está o “gráfico do sorriso” – a curva que mostra onde de fato se cria valor numa cadeia global: nas pontas, em P&D, design, marca e serviços, não no chão de fábrica. É a lógica que sustenta tanto o reshoring americano quanto a ofensiva chinesa por presença global. E é a lógica que o Brasil, historicamente instalado no meio da curva, precisa decifrar com urgência.
Para as empresas brasileiras, isso significa um redesenho urgente da governança corporativa. Não basta gerenciar riscos locais; é preciso navegar com precisão cirúrgica em meio ao fogo cruzado das superpotências – antecipando impactos regulatórios, blindando o compliance contra choques protecionistas e construindo cadeias de suprimento resilientes, com fornecedores diversificados e cláusulas contratuais que absorvam sobressaltos tarifários.
A crise, porém, também abre janelas. O apetite chinês por parcerias locais em baterias e transição energética é uma delas – setores em que o Brasil tem ativos reais: minerais críticos, energia limpa, escala de mercado. A pergunta é se essas oportunidades serão capturadas com estratégia ou desperdiçadas por falta de governança.
Porque é a governança corporativa – não a sorte nem a diplomacia de ocasião – que oferece a segurança jurídica capaz de atrair e sustentar esses negócios.
Combinar valor, inovação e conformidade é o único caminho para o país deixar de ser espectador de um jogo que os outros desenham e passar a jogar, com peças próprias, no tabuleiro global.
Fernando Röhsig – Conselheiro de Administração (CCA – IBGC).



