
Uma das crises corporativas mais incomuns da história recente do ecossistema WordPress sofreu uma reviravolta em questão de horas.
Matt Mullenweg, cofundador do WordPress e fundador da Automattic, comunicou aos funcionários da companhia que está novamente no comando da empresa, apenas dois dias depois de o conselho ter votado para colocá-lo em uma licença remunerada contra sua vontade.
Na sexta-feira, 11 de setembro, Mullenweg publicou uma mensagem no Slack interno dizendo que o conselho estava novamente em acordo e que ele havia retomado o controle da Automattic. O TechCrunch confirmou a autenticidade da publicação com vários funcionários. Naquele momento, porém, a empresa ainda não havia respondido oficialmente às solicitações de confirmação.
Horas depois, Mary Hubbard, diretora-executiva do projeto WordPress.org, tornou a situação mais clara ao declarar publicamente que estava satisfeita em ver Mullenweg retornar ao cargo de CEO da Automattic. Outros veículos posteriormente também receberam confirmação de que ele estava novamente na função.
A mudança encerra — pelo menos formalmente — um afastamento que durou menos de 48 horas. Mas deixa uma quantidade extraordinária de perguntas sem resposta sobre o que aconteceu dentro da empresa.
Tudo começou com uma votação do conselho
Na quarta-feira, 9 de setembro, Mullenweg revelou aos funcionários que o conselho da Automattic havia decidido colocá-lo em licença remunerada.
Ele não concordou com a decisão.
Segundo o próprio executivo, votou contra a resolução e recebeu o documento apenas 50 minutos antes da reunião em que o afastamento seria analisado.
Mullenweg afirmou ainda ter solicitado repetidamente tempo adicional para que um advogado independente pudesse revisar a resolução, mas seu pedido teria sido negado.
A Automattic confirmou naquele momento que Mullenweg estava de licença e que seu diretor financeiro, Mark Davies, passaria a comandar a empresa como CEO interino.
A companhia declarou publicamente ter “total confiança” na liderança de Davies e na capacidade da equipe de continuar executando suas prioridades.
Dois dias depois, tudo mudou.
Mullenweg disse que estava novamente “no controle”
Na mensagem enviada aos funcionários, Mullenweg começou fazendo uma referência à música “Mama Said Knock You Out”, de LL Cool J, e anunciou que o conselho havia voltado a um acordo.
Ele disse ainda que muita coisa havia acontecido nas 48 horas anteriores e que esperava que grande parte do conflito tivesse sido resultado de um mal-entendido.
O fundador afirmou também manter grande respeito pelas pessoas envolvidas.
O tom era completamente diferente daquele utilizado dois dias antes, quando acusou membros do conselho de terem agido pelas suas costas.
Mark Davies desapareceu do Slack corporativo
Outro sinal de que algo importante havia mudado apareceu internamente.
Fontes do TechCrunch relataram que a conta de Mark Davies no Slack da Automattic havia sido desativada.
Davies era justamente o CFO escolhido pelo conselho para substituir temporariamente Mullenweg como CEO.
O TechCrunch também recebeu informações de que, antes de anunciar seu retorno, Mullenweg teria removido todos os administradores do Slack corporativo.
Esses movimentos aumentaram inicialmente a incerteza sobre o que estava acontecendo.
No começo, nem os funcionários sabiam se aquilo era sério
Quando a mensagem apareceu, o próprio TechCrunch tratou a situação com cautela.
Nenhum funcionário ouvido pela publicação havia recebido naquele momento uma confirmação separada do conselho.
Além disso, Mullenweg estava publicando mensagens incomuns e brincadeiras nas redes sociais.
Questionado diretamente pelo TechCrunch sobre a possibilidade de estar apenas provocando as pessoas no Slack, ele respondeu de maneira bem-humorada que não era um troll, mas um “pirata”.
Por algumas horas, portanto, existia uma situação extraordinária:
o fundador dizia que havia retomado a empresa, enquanto o conselho permanecia publicamente em silêncio.
Mary Hubbard confirmou o retorno
A situação ganhou uma confirmação mais concreta posteriormente.
Mary Hubbard, diretora-executiva do WordPress.org, declarou publicamente estar aliviada e satisfeita com o retorno de Matt Mullenweg como CEO da Automattic.
Isso é importante porque Hubbard já havia sido uma das pessoas que, dois dias antes, comunicara à comunidade WordPress que o afastamento de Mullenweg da Automattic não alteraria a liderança do projeto open source.
Outros relatos publicados posteriormente também passaram a tratar Mullenweg novamente como CEO.
Portanto, o cenário atual é diferente daquele capturado inicialmente no card do TechCrunch: há evidências posteriores confirmando que o retorno efetivamente ocorreu.
O motivo do afastamento continua sendo o grande mistério
Talvez a questão mais importante permaneça sem resposta.
Por que o conselho decidiu afastar o fundador?
A Automattic nunca apresentou publicamente uma explicação detalhada para a decisão.
Na quarta-feira, a empresa limitou-se a confirmar que Mullenweg estava de licença e que Davies assumiria interinamente.
Também não explicou posteriormente quais acontecimentos fizeram o conselho reverter uma decisão tão importante em menos de dois dias.
Isso impede afirmar que Mullenweg:
“venceu uma disputa jurídica”;
“derrubou o conselho”;
“reverteu legalmente o afastamento”;
ou que algum integrante tenha renunciado.
Até agora, esses detalhes não foram publicamente esclarecidos.
Mullenweg havia acusado quatro pessoas de agir contra ele
Ao anunciar seu afastamento, o fundador apontou diretamente para Mark Davies e para integrantes do conselho.
Segundo Mullenweg, Davies teria agido em conjunto com Ann Dunwoody, Toni Schneider e Sue Decker para colocá-lo em licença remunerada.
Essa é, porém, a caracterização de Mullenweg sobre os acontecimentos internos.
Não há evidência pública suficiente para transformar a acusação de “conspiração” em um fato estabelecido.
O que está confirmado é que o conselho realmente votou pelo afastamento e que Davies realmente foi colocado no cargo de CEO interino.
Mullenweg nunca deixou o conselho da Automattic
Existe outra distinção importante.
Mesmo quando perdeu temporariamente a função executiva, Mullenweg continuou sendo integrante do conselho de administração.
Davies havia informado aos funcionários que o fundador continuaria tendo voz nas decisões e na definição da direção da companhia.
Portanto, Mullenweg foi afastado da função de CEO, mas não completamente removido da estrutura de governança da empresa.
Essa posição pode ter sido importante durante as intensas negociações ocorridas nas horas seguintes.
E ele também nunca deixou de comandar o projeto WordPress
Aqui existe uma distinção fundamental para compreender toda a história.
Automattic não é WordPress.
A Automattic é uma companhia privada fundada por Mullenweg e responsável por produtos e serviços como WordPress.com, WooCommerce, Tumblr e outros negócios.
Já o WordPress.org representa o projeto open source e seu ecossistema.
Quando Mullenweg foi colocado em licença na Automattic, Mary Hubbard esclareceu que isso não alterava sua posição como líder do projeto WordPress.
Portanto, durante aquelas aproximadamente 48 horas, ele havia perdido temporariamente o comando executivo da Automattic, mas não a liderança do projeto WordPress.
Essa diferença evita uma interpretação equivocada
Não seria correto afirmar que:
“Matt Mullenweg foi expulso do WordPress.”
Isso não aconteceu.
Da mesma forma, o WordPress não ficou sem liderança durante o episódio.
A crise estava concentrada na estrutura corporativa da Automattic.
O problema é que Mullenweg ocupa posições tão centrais nos dois ecossistemas que qualquer turbulência em uma das estruturas inevitavelmente repercute na outra.
A crise acontece em um momento delicado para a Automattic
A empresa atravessa há algum tempo um período de forte turbulência.
Um dos principais focos é a batalha jurídica contra a WP Engine, uma das maiores empresas de hospedagem especializada em WordPress.
O conflito tornou-se público em 2024 e evoluiu rapidamente para acusações, processos judiciais, disputas sobre marcas, acesso ao WordPress.org e questionamentos sobre a relação entre o projeto open source e os interesses comerciais da Automattic.
WP Engine acusa Mullenweg e a Automattic, entre outras coisas, de abuso de poder e práticas indevidas.
Automattic e Mullenweg contestam as acusações e apresentaram suas próprias reivindicações.
A disputa continua em andamento.
Mullenweg sugeriu que a WP Engine poderia estar relacionada à crise
Depois de ser afastado, Mullenweg publicou mensagens sugerindo que a Silver Lake — empresa de private equity controladora da WP Engine — poderia ter relação com o que estava acontecendo.
Ele também fez comentários indicando que esperava ataques contra sua reputação.
Essas alegações não foram comprovadas publicamente.
Não existe, até o momento, evidência independente suficiente para afirmar que a WP Engine ou a Silver Lake tenham organizado, provocado ou participado da votação do conselho da Automattic.
Essa distinção é especialmente importante devido ao litígio em andamento.
O conflito com a WP Engine já provocou consequências internas
A batalha não ficou restrita aos tribunais.
Em 2024, Mullenweg ofereceu pacotes de saída para funcionários que discordassem da maneira como ele estava conduzindo a disputa.
Segundo o TechCrunch, 159 funcionários aceitaram.
Em abril de 2025, a Automattic realizou outra reestruturação e demitiu aproximadamente 16% de sua força de trabalho.
Esses acontecimentos aumentaram a atenção sobre a cultura corporativa e o modelo de liderança da companhia.
O retorno não significa que a crise esteja resolvida
A volta de Mullenweg ao cargo responde apenas uma pergunta:
quem está comandando a Automattic agora?
Matt Mullenweg.
Mas praticamente todas as outras perguntas permanecem abertas.
O que levou quatro integrantes do conselho a votar pelo afastamento?
O que aconteceu durante as 48 horas seguintes?
O conselho realizou uma nova votação?
Houve mudança na composição da administração?
Quais condições permitiram o retorno?
Qual é a situação de Mark Davies?
Haverá alterações na governança?
Nenhuma explicação pública completa foi apresentada até agora.
O silêncio do conselho é particularmente significativo
Quando o afastamento aconteceu, a Automattic rapidamente confirmou que Davies assumiria interinamente.
Quando Mullenweg anunciou que estava de volta, a resposta institucional foi inicialmente muito diferente:
silêncio.
O TechCrunch procurou repetidamente a companhia para confirmar a declaração e não recebeu resposta imediata.
O próprio Mullenweg disse que publicaria um texto posteriormente.
Quando uma nova publicação apareceu em seu site pessoal, porém, ela tratava da compra de um houseboat, e não da crise corporativa.
O comportamento adicionou ainda mais estranheza a uma situação que já era extremamente incomum.
Mullenweg também ironizou a disputa publicamente
Nas redes sociais, o fundador adotou um tom provocativo.
Em uma publicação, escreveu que conselhos de administração “nunca são entediantes”.
Em outra, apresentou uma espécie de conselho para fundadores, dizendo que, se alguém não enfrenta uma tentativa de golpe a cada alguns anos, talvez não esteja contratando líderes suficientemente fortes.
Posteriormente, chegou a brincar sobre aquela ter sido sua quinta tentativa de “coup”.
As declarações mostram como Mullenweg escolheu tratar publicamente o episódio.
Mas não explicam:
o que efetivamente aconteceu dentro da sala do conselho.
Governança é justamente o ponto central
A situação da Automattic expõe uma tensão comum em empresas lideradas por fundadores.
Fundadores podem possuir enorme influência sobre:
cultura;
produto;
estratégia;
marca;
investidores;
funcionários;
comunidade.
Mas uma companhia com conselho de administração possui também:
uma estrutura formal de governança.
E essa estrutura pode entrar em conflito com o fundador.
Steve Jobs é o exemplo histórico mais conhecido
O Vale do Silício possui vários casos de fundadores que perderam temporariamente o controle de suas próprias empresas.
Steve Jobs foi afastado da Apple em 1985.
Travis Kalanick deixou o comando da Uber em 2017 após pressão de investidores.
Sam Altman foi removido pela antiga estrutura de governança da OpenAI em novembro de 2023 e retornou poucos dias depois após uma reação extraordinária de funcionários e investidores.
Agora, a Automattic apresenta sua própria versão desse fenômeno.
Com uma diferença particularmente impressionante:
a crise durou menos de dois dias.
A comparação com OpenAI é tentadora, mas os casos são diferentes
Existem semelhanças superficiais.
Fundador ou líder poderoso.
Conselho decide afastá-lo.
Reação interna.
Negociações intensas.
Retorno rápido.
Mas não existem evidências suficientes para afirmar que os mecanismos foram iguais.
No caso da OpenAI em 2023, houve forte mobilização pública de funcionários e investidores.
Na Automattic, ainda não conhecemos detalhadamente:
o que fez o conselho mudar de posição.
Portanto, qualquer conclusão sobre quem “venceu” a disputa seria prematura.
O episódio pode deixar consequências internas profundas
Um conselho que tenta afastar o CEO e reverte a decisão em menos de 48 horas enfrenta inevitavelmente questões sobre:
autoridade;
confiança;
processo decisório;
governança.
O mesmo vale para o CEO.
Se parte significativa do conselho acreditou que Mullenweg deveria deixar temporariamente o comando, existe uma pergunta óbvia:
o que motivou essa avaliação?
Até que essa resposta apareça, a volta ao cargo não encerra necessariamente a instabilidade.
Também existe impacto sobre funcionários
Durante poucos dias, funcionários receberam sinais completamente diferentes sobre quem lideraria a organização.
Na quarta-feira:
Mullenweg estava fora.
Davies era CEO interino.
O conselho tinha confiança total nele.
Na sexta-feira:
Mullenweg dizia estar novamente no controle.
A conta de Davies no Slack estava desativada.
Pouco depois, a liderança do WordPress confirmava publicamente a volta de Mullenweg.
Esse nível de mudança em tão pouco tempo pode gerar incerteza dentro de qualquer organização.
Para a comunidade WordPress, a mensagem continua sendo de continuidade
Apesar do drama corporativo, WordPress.org tentou separar claramente os dois mundos.
Mary Hubbard declarou desde o início que o projeto open source continuaria operando normalmente.
Mullenweg permaneceu líder do WordPress durante todo o período.
Isso significa que usuários comuns não deveriam interpretar a crise como uma interrupção técnica do CMS ou como perda de controle de seus sites.
A turbulência é principalmente:
corporativa e de governança.
Mas Automattic tem enorme influência sobre o ecossistema
Ainda assim, seria igualmente errado tratar o episódio como irrelevante para WordPress.
Automattic controla ou mantém produtos profundamente ligados ao ecossistema, como WordPress.com e WooCommerce, e emprega inúmeros profissionais que trabalham em tecnologias relacionadas ao projeto.
Mullenweg também ocupa simultaneamente posições centrais na empresa e na comunidade.
Por isso, qualquer crise de liderança na Automattic inevitavelmente desperta questionamentos sobre o futuro do ecossistema mais amplo.
Uma crise que começou e aparentemente terminou em menos de 48 horas
Na quarta-feira, o conselho decidiu que Matt Mullenweg deveria deixar temporariamente o cargo.
Na sexta-feira, o fundador anunciou:
estou novamente no controle.
Mark Davies, que havia sido colocado no comando, deixou de aparecer no Slack corporativo.
Mary Hubbard confirmou publicamente o retorno de Mullenweg como CEO.
O que falta agora é justamente a parte mais importante da história:
por quê?
Até que o conselho ou a própria Automattic apresente uma explicação detalhada, o episódio continuará cercado por dúvidas.
Mas uma coisa já está clara: a tentativa de afastar um dos fundadores mais influentes da história da web durou menos de dois dias.
E Matt Mullenweg está novamente no comando da empresa que criou.



