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Nuvei aceita pagar US$ 4,85 milhões após FTC acusar processadora de facilitar pagamentos de golpes contra consumidores

Acordo proposto nos Estados Unidos envolve acusações de que a gigante de pagamentos abriu e manteve contas para comerciantes que sabia — ou deveria saber — que estavam envolvidos em práticas enganosas. Somente o esquema de suporte técnico Reimage movimentou mais de US$ 30 milhões em pagamentos processados pela companhia, segundo a FTC.

Uma fraude digital pode ter um site convincente, atendentes preparados e anúncios capazes de atrair milhares de vítimas. Mas existe uma peça sem a qual praticamente nenhum golpe comercial consegue funcionar em grande escala:

o pagamento.

É justamente essa infraestrutura que está no centro de uma nova ação da Federal Trade Commission dos Estados Unidos contra a processadora global Nuvei.

A empresa concordou com um acordo de US$ 4,85 milhões para encerrar acusações da FTC de que abriu e manteve contas de processamento de pagamentos para comerciantes envolvidos em práticas enganosas, incluindo operações de falso suporte técnico que retiraram milhões de dólares de consumidores.

O caso foi apresentado no início de setembro e mostra uma mudança importante na estratégia das autoridades americanas contra fraudes:

não perseguir apenas quem aplica o golpe, mas também empresas que, segundo os reguladores, permitem que o dinheiro continue circulando mesmo diante de sinais de risco.

A publicação está correta, mas simplifica o caso

A imagem compartilhada afirma que a Nuvei fechou um acordo de US$ 4,85 milhões relacionado a fraude e que processou pagamentos para um telemarketing fraudulento.

A essência está correta.

Mas juridicamente é importante utilizar uma formulação mais precisa.

A FTC acusa a Nuvei e suas subsidiárias de terem facilitado práticas fraudulentas por meio de serviços de processamento de pagamentos.

O acordo não significa que todo pagamento processado pela Nuvei fosse fraudulento, nem que a empresa tenha criado os golpes.

A acusação é outra:

a companhia teria continuado fornecendo infraestrutura financeira para determinados comerciantes apesar de sinais que indicariam atividades enganosas.

O principal caso envolve a Reimage

Uma parte significativa da acusação envolve uma operação chamada:

Reimage.

Segundo a FTC, tratava-se de um esquema internacional de suporte técnico que atingia consumidores, inclusive nos Estados Unidos.

A Nuvei teria processado, entre 2017 e 2023:

mais de US$ 30 milhões em pagamentos de consumidores relacionados à Reimage.

É um número muito superior ao valor do próprio acordo de US$ 4,85 milhões.

Como funcionam golpes de suporte técnico?

Esse tipo de fraude explora um dos maiores medos de usuários comuns:

“seu computador está infectado.”

A vítima pode encontrar:

um anúncio;

uma página;

um pop-up;

um aviso de segurança;

ou uma oferta de software.

A mensagem sugere que existe algum problema no computador.

Vírus.

Malware.

Arquivos corrompidos.

Problemas de desempenho.

A partir daí, o consumidor é conduzido para uma suposta solução.

O medo vira uma venda

Uma pessoa que acredita que seu computador está comprometido pode estar disposta a pagar rapidamente.

O fraudador oferece:

software;

diagnóstico;

suporte;

limpeza;

proteção.

O consumidor fornece os dados do cartão.

E é nesse momento que a infraestrutura de pagamentos se torna essencial.

O fraudador precisa transformar:

engenharia social

em

dinheiro.

Processadoras são uma das pontes entre o golpe e o sistema financeiro

Quando alguém compra alguma coisa com cartão, existe uma cadeia tecnológica e financeira complexa acontecendo em segundos.

Consumidor.

Comerciante.

Gateway.

Processadora.

Banco adquirente.

Bandeira.

Banco emissor.

Cada participante possui uma função.

Essa estrutura precisa ser extremamente rápida para permitir o comércio digital.

Mas também precisa identificar operações de risco.

A FTC afirma que existiam sinais

A acusação contra a Nuvei vai além de dizer que um fraudador utilizou sua plataforma sem que a empresa soubesse.

Segundo a FTC, a companhia sabia ou deveria saber que determinados comerciantes estavam envolvidos em práticas enganosas.

Documentos apresentados no caso descrevem sinais internos relacionados à Reimage.

Em manifestação conjunta sobre o acordo, integrantes da própria FTC afirmaram que os underwriters da Nuvei chegaram a classificar a operação internamente de forma extremamente negativa.

Ainda assim, segundo a acusação, o processamento continuou.

Mais de US$ 30 milhões passaram pela infraestrutura

A FTC afirma que a Nuvei forneceu contas de processamento que permitiram que a Reimage recebesse pagamentos de cartões de consumidores americanos e de outros países.

Parte dessas operações passou por estruturas internacionais e empresas relacionadas.

Em um dos canais detalhados na ação, por exemplo, a FTC afirma que entre 2017 e julho de 2023 foram processadas mais de:

89 mil cobranças da Reimage

somando aproximadamente:

US$ 4,1 milhões, já considerando reembolsos e chargebacks.

Mais de 12 mil dessas cobranças estariam relacionadas a consumidores dos Estados Unidos.

Esse é apenas um dos caminhos de processamento descritos pela autoridade.

E Reimage não é o único comerciante citado

A ação menciona outras categorias de empresas que teriam recebido serviços de pagamento.

Entre os exemplos está a:

DK Automation.

A FTC já havia atuado contra a companhia e seu fundador por alegações relacionadas à venda de oportunidades de negócios com promessas de ganhos consideradas falsas ou sem fundamentação.

Outro nome citado é:

American Tax Service.

A operação foi alvo de ação da FTC e do Estado de Nevada em 2025 por acusações de se passar por autoridades governamentais e fazer promessas enganosas relacionadas a dívidas tributárias.

Há ainda comerciantes anteriormente rejeitados

Segundo a FTC, a subsidiária americana da Nuvei também teria aberto ou mantido contas para comerciantes que já haviam enfrentado problemas com outras processadoras ou bancos adquirentes por motivos como:

fraude;

chargebacks excessivos;

ou outros indicadores de risco.

Esse ponto é particularmente importante.

O ecossistema de pagamentos possui sistemas justamente para identificar comerciantes problemáticos.

Chargeback pode funcionar como sinal de alerta

Imagine que centenas de consumidores comprem de determinada empresa.

Depois começam a dizer aos bancos:

“eu não autorizei isso”

ou

“fui enganado.”

Eles contestam as cobranças.

Isso gera:

chargebacks.

Uma quantidade elevada de chargebacks pode indicar diferentes problemas.

Atendimento ruim.

Produto que não chegou.

Assinatura mal explicada.

Fraude.

Práticas comerciais enganosas.

Por isso, processadoras e bandeiras monitoram essas taxas.

Uma empresa de pagamentos não pode simplesmente ignorar risco

Esse é o princípio central do caso.

Processadoras não são automaticamente responsáveis por qualquer fraude cometida por todos os comerciantes que utilizam suas plataformas.

Se isso acontecesse, seria praticamente impossível operar um sistema global de pagamentos.

A questão jurídica aparece quando existem sinais suficientemente fortes e, segundo a autoridade, o intermediário continua facilitando a atividade.

A própria FTC fez essa distinção

Esse detalhe é importante para não transformar o caso em uma conclusão exagerada.

Na manifestação relacionada à Nuvei, integrantes da FTC reconheceram que comerciantes fraudulentos podem escapar até mesmo de sistemas legítimos de prevenção.

Nenhum sistema antifraude é perfeito.

O problema não é simplesmente:

“um golpista utilizou a plataforma.”

O problema alegado é continuar processando quando sinais concretos tornam o dano previsível.

O acordo muda as obrigações da Nuvei

O pagamento de US$ 4,85 milhões é apenas uma parte do acordo proposto.

O valor deverá ser destinado à reparação de consumidores.

Mas existem também restrições operacionais importantes.

A Nuvei ficará proibida de fornecer determinados serviços de pagamento a vendedores de suporte técnico que utilizem:

telemarketing

ou

pop-ups relacionados à segurança ou ao desempenho de computadores e outros dispositivos.

Empresa terá de reforçar análise de comerciantes

O acordo também determina procedimentos mais rigorosos para:

screening e monitoramento.

Isso significa avaliar melhor empresas antes de permitir que utilizem a infraestrutura.

E continuar avaliando depois que começam a processar pagamentos.

Entre os pontos de atenção estão categorias consideradas de maior risco, como determinados negócios envolvendo telemarketing.

Chargebacks elevados deverão disparar investigações

O acordo estabelece ainda exigências adicionais para comerciantes que ultrapassem determinados limites de chargeback.

Isso pode incluir:

investigação reforçada;

análise da atividade;

monitoramento.

A lógica é simples.

Se consumidores começam a contestar pagamentos em volume anormal, a processadora não deve tratar isso apenas como estatística.

Pode ser um sinal de que algo está errado.

“Load balancing” também aparece no processo

Outro ponto técnico interessante envolve mecanismos utilizados para distribuir transações entre diferentes contas ou estruturas de pagamento.

Distribuir carga não é, por si só, algo fraudulento.

Sistemas legítimos fazem isso por diversas razões.

O problema ocorre quando estruturas são utilizadas para:

evitar sistemas antifraude ou mecanismos de monitoramento das bandeiras e bancos.

O acordo proíbe a Nuvei de utilizar ou auxiliar práticas destinadas a contornar esses controles.

A batalha contra golpes está chegando à infraestrutura

Durante muitos anos, o combate à fraude online concentrou-se principalmente no fraudador.

Retirar site.

Bloquear domínio.

Prender operador.

Remover anúncio.

Mas existe outra estratégia:

cortar a infraestrutura necessária para monetizar o golpe.

Sem pagamento, grande parte das fraudes comerciais perde seu objetivo.

É a mesma lógica utilizada em cibersegurança

Quando investigadores combatem ransomware, não procuram apenas o malware.

Também analisam:

servidores;

criptomoedas;

contas;

infraestrutura;

lavagem de dinheiro;

intermediários.

Fraude digital funciona de maneira semelhante.

O golpe possui uma cadeia.

Publicidade leva vítimas.

Sites convencem.

Telemarketing pressiona.

Processamento transforma cartões em dinheiro.

Bancos movimentam os valores.

Atacar diferentes pontos dessa cadeia pode tornar o golpe economicamente inviável.

Processadoras ocupam uma posição privilegiada

Empresas de pagamentos conseguem observar padrões que consumidores individuais não conseguem.

Um consumidor vê:

uma compra.

A processadora pode ver:

milhares de compras;

chargebacks;

países;

valores;

horários;

reembolsos;

comportamento histórico.

Isso permite detectar anomalias.

IA deverá aumentar ainda mais essa capacidade

Aqui surge uma conexão importante com inteligência artificial.

Processadoras já utilizam modelos de machine learning há anos para identificar fraude.

Agora sistemas mais avançados podem analisar:

comportamento de comerciantes;

relações entre contas;

padrões de transações;

histórico;

documentação;

sites;

reclamações.

A tendência é que o onboarding de comerciantes se torne cada vez mais automatizado e baseado em risco.

Mas fraude também está utilizando IA

O outro lado da disputa evolui simultaneamente.

Criminosos podem utilizar IA para criar:

sites;

textos;

anúncios;

atendimentos;

documentos;

identidades sintéticas;

campanhas de engenharia social.

Isso pode reduzir drasticamente o custo para criar operações fraudulentas.

Uma campanha que antes exigia dezenas de pessoas poderá ser parcialmente automatizada.

O pagamento continua sendo o gargalo

Por mais sofisticado que seja o golpe, em algum momento o criminoso precisa:

receber dinheiro.

Cartão.

Pix.

Criptomoeda.

Transferência.

Boleto.

É por isso que empresas financeiras ocupam uma posição estratégica na prevenção de fraude.

Existe uma batalha entre conversão e segurança

Processadoras possuem um problema difícil.

Clientes querem aprovar o maior número possível de transações legítimas.

Bloquear demais gera:

perda de vendas;

clientes irritados;

abandono.

Bloquear de menos aumenta:

fraude;

chargeback;

prejuízo;

risco regulatório.

O desafio é descobrir exatamente onde colocar a barreira.

O caso Nuvei envia uma mensagem ao mercado

A FTC deixa claro que pretende olhar não apenas para quem engana diretamente consumidores.

Também pode responsabilizar intermediários quando considerar que eles tiveram papel relevante em permitir a continuidade da fraude.

Para o setor de pagamentos, isso aumenta a importância de:

KYC;

KYB;

monitoramento;

antifraude;

chargebacks;

compliance;

due diligence.

KYB será cada vez mais importante

Muita gente conhece:

KYC — Know Your Customer.

Conheça seu cliente.

Para processadoras existe também:

KYB — Know Your Business.

Conheça a empresa.

Quem são os proprietários?

O que ela vende?

Onde opera?

Qual seu histórico?

O site corresponde à atividade declarada?

Já foi encerrada por outra processadora?

Possui reclamações?

Quem é o beneficiário real?

Essas perguntas ajudam a impedir que uma empresa fraudulenta simplesmente abra uma nova conta e continue operando.

O desafio são as empresas descartáveis

Fraudadores podem criar:

uma empresa;

um domínio;

uma conta.

Quando o sistema detecta problemas, abandonam tudo.

Depois surgem com:

novo nome;

novo domínio;

novo CNPJ ou equivalente;

nova estrutura.

Por isso, sistemas antifraude precisam identificar não apenas empresas.

Precisam encontrar:

relações.

Pessoas.

Endereços.

Dispositivos.

Contas.

Infraestrutura.

Padrões.

A regulamentação está colocando mais responsabilidade nos intermediários

Esse movimento aparece em diferentes áreas da economia digital.

Plataformas precisam combater anúncios fraudulentos.

Bancos precisam monitorar transações suspeitas.

Criptoexchanges precisam implementar controles.

Processadoras precisam avaliar comerciantes.

Marketplaces precisam combater vendedores fraudulentos.

A internet está gradualmente abandonando uma lógica em que intermediários poderiam simplesmente dizer:

“somos apenas a plataforma.”

Mas existe um limite importante

Responsabilizar intermediários demais também pode produzir efeitos negativos.

Se processadoras ficarem extremamente receosas, podem rejeitar:

startups;

pequenas empresas;

negócios internacionais;

setores considerados arriscados.

Isso cria o chamado:

de-risking.

Empresas legítimas acabam perdendo acesso a serviços financeiros porque pertencem a categorias estatisticamente mais arriscadas.

É por isso que o caso precisa ser interpretado com precisão

A acusação da FTC não estabelece que uma processadora seja culpada sempre que um comerciante engana alguém.

O ponto é muito mais específico.

Segundo a autoridade, havia informações e sinais suficientes para que a Nuvei soubesse ou devesse saber sobre determinadas práticas.

É essa alegação que sustenta a ação.

E o acordo ainda passa pelo Judiciário

Outro detalhe jurídico relevante:

a FTC apresentou a reclamação e a ordem estipulada no Tribunal Distrital dos Estados Unidos para o Distrito do Arizona.

O caso aparece oficialmente como:

pendente.

Portanto, a formulação mais correta neste momento é dizer que a Nuvei concordou com um acordo proposto de US$ 4,85 milhões, sujeito ao processo judicial correspondente.

Nuvei não está sendo acusada de rouba

r diretamente os consumidores

Essa distinção também merece destaque.

A ação não afirma que a Nuvei criou o falso suporte técnico e ligou diretamente para as vítimas.

A acusação é de:

facilitação por meio do processamento de pagamentos.

É uma diferença importante jurídica e jornalisticamente.

US$ 4,85 milhões podem parecer pouco diante dos valores processados

Somente a Reimage teria movimentado mais de:

US$ 30 milhões

em pagamentos processados pela Nuvei entre 2017 e 2023, segundo a FTC.

O acordo prevê:

US$ 4,85 milhões.

Mas seu impacto não deve ser medido apenas pela multa.

As obrigações de compliance podem ser muito mais relevantes no longo prazo.

Modificar processos de:

onboarding;

monitoramento;

investigação;

risco;

bloqueio

pode afetar toda a operação.

E quatro dias depois a FTC voltou ao setor de pagamentos

Existe ainda um contexto interessante.

Em 8 de setembro, apenas quatro dias depois do anúncio envolvendo a Nuvei, a FTC anunciou outra ação contra uma processadora:

Humboldt Merchant Services.

Nesse segundo caso, o acordo anunciado chegou a:

US$ 12 milhões.

A sequência mostra que intermediários de pagamentos estão claramente no radar da autoridade americana.

O combate à fraude está seguindo o dinheiro

Essa talvez seja a principal conclusão do caso.

Golpistas podem trocar:

domínio;

telefone;

empresa;

nome;

site.

Mas precisam continuar recebendo.

Quando autoridades começam a responsabilizar empresas que fornecem infraestrutura financeira mesmo diante de fortes sinais de fraude, atacar consumidores fica mais difícil e mais caro.

Para processadoras, a mensagem também é clara:

aprovar pagamentos não é suficiente.

É necessário entender:

quem está recebendo;

o que está vendendo;

como vende;

qual o histórico;

e quais sinais aparecem depois que as transações começam.

O caso Nuvei mostra que, na economia digital, prevenção de fraude deixou de ser apenas uma ferramenta para reduzir chargebacks.

Está se tornando uma questão central de:

compliance, responsabilidade jurídica e confiança no sistema financeiro.

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