
Na fábrica da BMW em Spartanburg, na Carolina do Sul, o robô humanoide Figure 02 participou da produção de mais de 30 mil unidades do BMW X3, movimentou mais de 90 mil componentes e acumulou aproximadamente 1.250 horas de operação.
Os números apresentados na imagem são verdadeiros e foram confirmados tanto pela BMW quanto pela Figure AI.
Existe, porém, uma precisão importante: os robôs não “fabricaram 30 mil carros” sozinhos. O Figure 02 contribuiu para o processo produtivo desses veículos, executando uma tarefa específica dentro da linha.
Figure 02 trabalhava dez horas por turno
A operação aconteceu durante 2025 e representou a primeira utilização de humanoides em uma unidade produtiva da BMW.
Ao longo de aproximadamente dez meses, o Figure 02 trabalhou de segunda a sexta-feira em turnos de dez horas.
Sua função estava concentrada na área de carrocerias.
O humanoide retirava peças metálicas e as posicionava com precisão em dispositivos utilizados no processo de soldagem.
Embora pareça uma operação relativamente simples, trata-se de uma tarefa repetitiva que exige precisão e pode ser ergonomicamente desgastante para trabalhadores humanos.
Mais de 90 mil componentes movimentados
Durante o programa, o Figure 02 movimentou mais de 90 mil componentes.
A Figure AI calcula que seus robôs também deram aproximadamente 1,2 milhão de passos, equivalentes a mais de 320 quilômetros de deslocamento acumulado.
O período de operação chegou a cerca de 1.250 horas.
Para a indústria de robôs humanoides, esses números são particularmente importantes porque fornecem dados de funcionamento em uma fábrica real.
Protótipos normalmente são demonstrados em ambientes controlados.
Spartanburg colocou o sistema em contato com condições muito mais próximas daquilo que será necessário para uma implantação comercial em grande escala.
Precisão milimétrica foi necessária
A atividade exigia que o robô manipulasse componentes e os posicionasse corretamente antes da etapa seguinte da produção.
A BMW afirma que o projeto demonstrou a capacidade dos humanoides de executar tarefas repetitivas com precisão milimétrica.
Isso é fundamental na indústria automobilística.
Um pequeno desalinhamento pode comprometer processos posteriores ou exigir intervenção humana.
A experiência também permitiu avaliar como o humanoide interagia com máquinas, infraestrutura e procedimentos já existentes dentro da fábrica.
Produção real revelou problemas que laboratório não mostra
Um dos objetivos da Figure AI era justamente descobrir onde seu hardware falharia depois de centenas de horas de utilização.
E isso aconteceu.
A empresa identificou, por exemplo, que o antebraço estava entre os principais pontos de falha do Figure 02.
O conjunto possuía eletrônica e cabeamento submetidos constantemente aos movimentos necessários durante a operação.
Esses dados foram utilizados no desenvolvimento da geração seguinte.
No Figure 03, a empresa redesenhou componentes eletrônicos dos braços e punhos, reduziu a complexidade do sistema e modificou a arquitetura de comunicação dos controladores.
Esse ciclo demonstra por que horas de trabalho em fábricas são tão valiosas para empresas de robótica.
Cada falha vira dado para a próxima geração
A corrida pelos humanoides depende de uma dinâmica semelhante à observada no desenvolvimento de veículos autônomos.
Quanto mais máquinas operam no mundo real, mais situações inesperadas aparecem.
Cada intervenção humana pode revelar um problema.
Cada componente quebrado mostra uma fragilidade.
Cada tarefa mal executada gera informação para treinamento ou engenharia.
É justamente esse volume de experiência operacional que startups como Figure, Tesla, Agility Robotics e outras empresas tentam acumular.
Figure 02 foi aposentado
Depois da experiência na BMW, a Figure começou a retirar de operação sua segunda geração de humanoides.
O Figure 02 cumpriu uma função essencial como plataforma de desenvolvimento, mas a estratégia da companhia avançou para o Figure 03.
O novo robô foi desenvolvido incorporando várias das lições obtidas em Spartanburg.
Isso inclui mudanças no hardware, maior facilidade de manutenção, melhorias nas mãos e sensores e alterações destinadas a aumentar a segurança durante operações próximas de pessoas.
Figure 03 já voltou para a BMW
A parceria não terminou com a aposentadoria do Figure 02.
Em junho de 2026, a BMW e a Figure iniciaram uma nova etapa em Spartanburg utilizando o Figure 03.
O robô foi levado para o Hall 52 da unidade americana.
Mas sua missão agora é diferente.
Em vez de simplesmente posicionar peças metálicas para soldagem, o humanoide está sendo preparado para trabalhar em um processo logístico conhecido como sequenciamento de componentes.
Nova tarefa exige muito mais inteligência
No sequenciamento, peças chegam dentro de grandes recipientes e precisam ser identificadas, retiradas e organizadas na ordem correta.
Isso cria um desafio muito maior.
As peças podem estar deslocadas.
Podem aparecer parcialmente escondidas.
Recipientes não ficam sempre exatamente na mesma posição.
O robô precisa perceber essas variações e ajustar seus movimentos.
Ao mesmo tempo, precisa manipular componentes com as mãos enquanto movimenta braços, tronco e pernas.
É uma tarefa muito mais próxima daquilo que empresas imaginam quando falam em robôs humanoides de uso geral.
Helix 02 controla o novo humanoide
O Figure 03 utiliza o sistema de inteligência artificial Helix 02, desenvolvido pela própria Figure.
A proposta é conectar percepção visual diretamente às ações físicas do robô.
Câmeras capturam o ambiente.
O modelo interpreta a situação.
E o sistema coordena mãos, braços, tronco e pernas para realizar a tarefa.
A Figure chama essa abordagem de Vision-Language-Action, ou VLA.
É uma das tecnologias que sustentam a chamada Physical AI, inteligência artificial capaz de perceber e agir no mundo físico.
Humanoides atacam problema que robôs tradicionais não resolvem facilmente
Fábricas já possuem milhares de robôs industriais.
Braços automatizados soldam, pintam, montam e movimentam componentes há décadas.
Então por que construir máquinas com formato humano?
A resposta está na infraestrutura.
Grande parte das fábricas foi projetada para pessoas.
Corredores, ferramentas, bancadas, prateleiras, caixas e estações de trabalho possuem dimensões humanas.
Um robô humanoide pode, em teoria, utilizar essa infraestrutura sem exigir uma reconstrução completa da fábrica.
Essa flexibilidade é o principal argumento econômico por trás da tecnologia.
BMW vê humanoides como complemento à automação
A montadora não apresenta a tecnologia como substituição imediata de toda sua força de trabalho.
A estratégia é utilizar humanoides principalmente em atividades monótonas, ergonomicamente desgastantes ou potencialmente perigosas.
Eles funcionariam como complemento aos sistemas de automação tradicionais.
Um braço industrial continua sendo extremamente eficiente para uma tarefa fixa executada milhões de vezes.
O humanoide ganha vantagem quando o ambiente muda ou quando várias atividades diferentes precisam ser realizadas utilizando equipamentos originalmente projetados para pessoas.
Segurança exigiu mudanças dentro da fábrica
A experiência de Spartanburg também mostrou que simplesmente colocar um humanoide na linha não é suficiente.
A BMW precisou envolver equipes de tecnologia da informação, segurança ocupacional, logística e gestão dos processos produtivos.
O projeto levou ainda a mudanças nos conceitos de segurança, incluindo barreiras e divisórias adicionais.
A cobertura de 5G dentro do galpão também precisou ser melhorada.
Esses detalhes revelam uma realidade menos glamourosa, mas extremamente importante da robótica industrial.
Um humanoide pode ser impressionante em uma demonstração.
Integrá-lo de forma segura a uma fábrica funcionando continuamente é um desafio muito maior.
BMW também está testando humanoides na Alemanha
A experiência americana já começou a influenciar outras fábricas do grupo.
Em 2026, a BMW iniciou seu primeiro projeto com humanoides em produção na Alemanha.
Na fábrica de Leipzig, a companhia passou a testar o AEON, desenvolvido pela Hexagon Robotics.
O sistema será avaliado em atividades relacionadas à montagem de baterias de alta tensão e fabricação de componentes.
Isso mostra que a BMW não pretende depender exclusivamente de um único fornecedor.
A montadora está experimentando diferentes arquiteturas de robôs para entender onde cada uma apresenta vantagens.
Mercado de humanoides está entrando em nova fase
Durante anos, robôs humanoides ficaram associados principalmente a vídeos impressionantes e protótipos.
Agora, a indústria começa a exigir outra métrica:
horas de trabalho útil.
É por isso que as 1.250 horas registradas pelo Figure 02 são mais relevantes do que simplesmente assistir ao robô caminhar.
Da mesma forma, movimentar 90 mil peças demonstra repetição em escala.
Ainda está muito distante da quantidade de horas acumuladas por máquinas industriais convencionais, que podem funcionar durante anos.
Mas representa um avanço importante para uma categoria tecnológica relativamente nova.
Figure quer produzir humanoides em escala
A próxima batalha será industrializar os próprios robôs.
A Figure vem acelerando a produção do Figure 03 e automatizando etapas de sua fábrica BotQ.
O objetivo não é construir algumas dezenas de protótipos artesanalmente.
A empresa pretende transformar humanoides em produtos fabricados em escala.
Para isso, precisa reduzir custos, aumentar confiabilidade e diminuir drasticamente a quantidade de manutenção necessária.
Um robô economicamente viável não pode depender constantemente de engenheiros especializados para continuar funcionando.
Computação virou outro gargalo
A Figure também está investindo pesadamente na infraestrutura necessária para treinar seus modelos de inteligência artificial.
No início de setembro, a companhia anunciou uma parceria estratégica com a Nscale envolvendo infraestrutura baseada na plataforma Nvidia Vera Rubin.
O acordo prevê capacidade para até 100 mil GPUs, com implantação inicial planejada para o segundo semestre de 2027 no Texas.
O compromisso inicial de computação é estimado em US$ 3,5 bilhões, com intenção de expansão para mais de US$ 6 bilhões.
Isso mostra como robótica e IA generativa estão convergindo.
Construir o corpo do robô é apenas metade do problema.
A outra metade é construir a inteligência capaz de controlá-lo.
Robôs precisam aprender com o mundo real
A Figure acredita que grandes quantidades de dados serão fundamentais para desenvolver sistemas capazes de realizar tarefas gerais.
Quanto mais robôs trabalham, mais dados de interação física podem ser coletados.
Essas informações alimentam os modelos.
Os modelos melhoram.
Robôs melhores conseguem realizar mais tarefas.
Mais tarefas produzem mais dados.
É o equivalente físico do ciclo utilizado para desenvolver modelos de linguagem — mas agora envolvendo movimento, visão, força, equilíbrio e manipulação de objetos.
Automóveis podem ser o laboratório perfeito
A indústria automotiva é um dos ambientes mais interessantes para testar essa tecnologia.
Fábricas possuem processos extremamente estruturados.
Existe controle de qualidade rigoroso.
As tarefas são repetitivas.
Existem métricas claras de produtividade.
E muitas operações ainda dependem de trabalhadores humanos devido à dificuldade de automatização convencional.
BMW, Mercedes-Benz, Hyundai e outras fabricantes estão acompanhando ou experimentando diferentes tecnologias de robótica avançada.
Se humanoides conseguirem demonstrar retorno financeiro nesses ambientes, a adoção poderá acelerar.
Ainda não significa substituição em massa de trabalhadores
Apesar do avanço, os números de Spartanburg precisam ser colocados em perspectiva.
O Figure 02 realizou uma tarefa relativamente específica.
Ele não montava um BMW inteiro.
Não substituiu toda uma linha.
E ainda operava dentro de um programa cuidadosamente acompanhado por engenheiros.
O salto entre executar uma atividade repetitiva e possuir um humanoide capaz de realizar dezenas de funções autonomamente continua enorme.
Por isso, previsões de substituição imediata de grandes parcelas da mão de obra industrial precisam ser vistas com cautela.
Mas a fronteira mudou
O que Spartanburg demonstra é algo diferente.
A discussão deixou de ser simplesmente se um humanoide consegue trabalhar em uma fábrica.
Isso já aconteceu.
Agora as perguntas são econômicas e industriais:
Quanto custa cada hora?
Quantas intervenções humanas são necessárias?
Quanto tempo o robô funciona antes de apresentar falhas?
Quantas tarefas diferentes consegue aprender?
Qual é sua vida útil?
Quanto custa fabricar milhares deles?
É a resposta a essas perguntas que determinará se humanoides permanecerão uma tecnologia de nicho ou se poderão se tornar tão comuns quanto os braços robóticos industriais.
30 mil BMW X3 representam um marco, não uma fábrica autônoma
Os números divulgados pela BMW e pela Figure são relevantes justamente porque mostram uma aplicação real.
Mais de 30 mil veículos receberam componentes manipulados pelo Figure 02. Mais de 90 mil peças foram movimentadas. Cerca de 1.250 horas foram acumuladas e 1,2 milhão de passos foram dados.
Isso não significa que 30 mil BMWs tenham sido construídos por robôs humanoides.
Significa algo talvez mais importante para o futuro da tecnologia:
um humanoide deixou de ser apenas uma demonstração e passou meses executando uma atividade repetitiva dentro de uma das indústrias mais exigentes do planeta.
Agora, com o Figure 03 assumindo tarefas mais complexas, BMW e Figure querem descobrir até onde essa evolução pode chegar.
A próxima grande revolução da inteligência artificial pode não acontecer apenas dentro de computadores.
Ela pode caminhar — literalmente — pelo chão das fábricas.



