
A corrida chinesa para construir uma infraestrutura de inteligência artificial menos dependente de tecnologia americana acaba de ganhar um projeto de enorme escala. A DeepSeek planeja instalar pelo menos 160 mil aceleradores Huawei Ascend 950DT em um novo centro de dados que está desenvolvendo na Mongólia Interior, segundo informações atribuídas a pessoas familiarizadas com o projeto.
Se concretizada na escala prevista, a instalação poderá se transformar em um dos maiores clusters conhecidos de chips de inteligência artificial da Huawei.
A informação apresentada na imagem está correta em sua essência, mas precisa de duas ressalvas importantes. O projeto e o pedido foram revelados por fontes familiarizadas com os planos das empresas e não foram oficialmente detalhados pela DeepSeek ou pela Huawei. Além disso, não há valor oficial divulgado para a compra.
Estimativas publicadas no mercado colocam a operação potencialmente na casa dos bilhões de dólares, mas esse número não deve ser tratado como preço confirmado do contrato.
Pelo menos 160 mil chips Ascend 950DT
A dimensão do projeto chama atenção.
A DeepSeek pretende utilizar pelo menos 160 mil unidades do Ascend 950DT, uma das novas gerações de aceleradores de IA desenvolvidas pela Huawei.
O número é suficientemente grande para colocar o projeto entre as maiores instalações conhecidas baseadas em hardware chinês.
Mas existe um obstáculo: produzir tudo isso.
A capacidade da Huawei para fabricar o Ascend 950DT continua limitada pela disponibilidade de componentes avançados, principalmente memória de alto desempenho.
Por isso, a entrega integral do pedido pode levar mais de um ano.
Data center pode consumir cerca de 1 gigawatt
O novo complexo está sendo desenvolvido em Ulanqab, na Mongólia Interior, região que se tornou estratégica para a expansão da infraestrutura computacional chinesa.
O projeto é descrito como um campus de aproximadamente 1 gigawatt de capacidade energética.
Para colocar a escala em perspectiva, 1 GW representa uma infraestrutura elétrica comparável à capacidade de geração de uma grande usina.
E os 160 mil chips da Huawei deverão representar apenas parte da capacidade computacional total planejada para o complexo.
A entrada parcial em operação é esperada entre 2027 e 2028, dependendo da construção da infraestrutura e da disponibilidade dos equipamentos.
Huawei entra na inferência, Nvidia continua no treinamento
Existe, porém, um detalhe fundamental.
Apesar da escala do pedido, a DeepSeek não pretende inicialmente utilizar os 160 mil Ascend 950DT para treinar seus grandes modelos de IA.
A função principal será a inferência.
Treinamento é o processo no qual enormes quantidades de dados e capacidade computacional são utilizadas para construir ou aprimorar um modelo.
Inferência acontece depois: é quando o modelo já treinado recebe uma pergunta ou comando do usuário e produz uma resposta.
Chatbots como o DeepSeek precisam realizar milhões dessas operações continuamente.
É justamente essa etapa que deverá ser executada em grande escala pelos chips da Huawei.
Nvidia ainda possui vantagem importante
Para o treinamento de seus modelos mais avançados, a DeepSeek continua utilizando aceleradores da Nvidia.
Isso mostra que a substituição da tecnologia americana ainda está longe de ser completa.
A DeepSeek já tentou utilizar chips Huawei em processos de treinamento, mas continuou dependendo de GPUs Nvidia para essa etapa mais exigente.
O cenário cria uma divisão interessante na infraestrutura chinesa.
Nvidia continua importante para criar os modelos. Huawei ganha espaço para executá-los em escala.
Para a indústria chinesa, entretanto, conquistar a inferência já representa um mercado gigantesco.
Inferência pode se tornar ainda maior que treinamento
Treinar um grande modelo exige enormes quantidades de computação, mas acontece em ciclos específicos.
A inferência acontece permanentemente.
Cada pergunta enviada ao DeepSeek, cada código gerado, cada documento analisado e cada agente executando uma tarefa consome capacidade computacional.
À medida que centenas de milhões de pessoas e empresas utilizam inteligência artificial, a infraestrutura necessária para inferência cresce rapidamente.
É por isso que conquistar esse mercado pode ser tão estratégico para a Huawei.
Se modelos chineses forem otimizados para funcionar eficientemente em chips Ascend, a dependência do ecossistema Nvidia poderá diminuir gradualmente.
Ascend 950DT foi desenvolvido para IA pesada
A Huawei apresentou seu roteiro para a nova geração Ascend ainda em 2025.
O Ascend 950DT foi projetado tanto para a etapa de decodificação da inferência quanto para treinamento de modelos.
O processador utiliza 144 GB de memória HiZQ 2.0, tecnologia de memória de alta largura de banda desenvolvida pela própria Huawei.
A empresa anunciou largura de banda de memória de 4 TB/s e interconexão total de aproximadamente 2 TB/s.
Essas características são particularmente importantes em grandes clusters, onde milhares de aceleradores precisam trocar enormes volumes de informações rapidamente.
A disponibilidade comercial do 950DT está prevista para o quarto trimestre de 2026.
Produção pode ser o maior gargalo
A ambição da DeepSeek esbarra justamente na capacidade industrial chinesa.
A Huawei precisa atender simultaneamente vários clientes interessados em substituir hardware americano.
Segundo as informações disponíveis, limitações relacionadas a memória avançada e outros componentes podem restringir a produção do Ascend 950DT às centenas de milhares de unidades neste ano.
Isso significa que apenas o projeto da DeepSeek poderia consumir uma parcela relevante da produção.
Huawei também pretende atender outros clientes chineses e disponibilizar volumes menores no mercado internacional.
Portanto, não basta a DeepSeek querer comprar 160 mil chips.
A Huawei precisa conseguir fabricá-los.
Restrições americanas ajudaram a criar um concorrente doméstico
O crescimento dos chips Ascend não pode ser separado da disputa tecnológica entre Estados Unidos e China.
Washington restringiu durante os últimos anos a exportação para a China dos aceleradores de IA mais avançados e de tecnologias utilizadas na fabricação de semicondutores.
O objetivo era limitar a capacidade chinesa de desenvolver sistemas avançados de inteligência artificial.
O efeito paralelo foi acelerar os investimentos de Pequim em alternativas domésticas.
Huawei tornou-se uma das principais beneficiárias dessa transformação.
Quanto mais difícil fica para empresas chinesas construir infraestrutura utilizando chips americanos de última geração, maior é o incentivo econômico para desenvolver software compatível com hardware produzido internamente.
DeepSeek ajuda a construir um ecossistema alternativo à Nvidia
O maior ativo da Nvidia não está apenas em seus chips.
A empresa possui um gigantesco ecossistema de software construído ao redor da plataforma CUDA.
Desenvolvedores utilizam há anos bibliotecas e ferramentas otimizadas para GPUs Nvidia.
Isso cria uma barreira enorme para concorrentes.
Mas essa vantagem diminui se empresas como DeepSeek começarem a otimizar seus modelos diretamente para chips Ascend.
Cada modelo compatível, biblioteca adaptada e ferramenta desenvolvida para Huawei torna o ecossistema chinês um pouco menos dependente da Nvidia.
A DeepSeek já trabalhou para otimizar modelos recentes para hardware Ascend.
Um cluster de 160 mil chips levaria essa estratégia para uma escala completamente diferente.
DeepSeek está gastando pesado em infraestrutura
O projeto também mostra uma transformação importante dentro da própria DeepSeek.
A empresa ficou mundialmente conhecida pela capacidade de desenvolver modelos competitivos utilizando recursos relativamente eficientes.
Isso, entretanto, não significa que inteligência artificial avançada possa funcionar sem infraestrutura bilionária.
A DeepSeek vem aumentando rapidamente seus gastos com capacidade computacional.
Nos primeiros sete meses de 2026, a empresa teria destinado cerca de 11 bilhões de yuans à infraestrutura de IA, incluindo aluguel de servidores, chips e outros equipamentos.
Em todo o ano de 2025, esse gasto teria ficado em aproximadamente 1,2 bilhão de yuans.
A diferença mostra a velocidade da expansão.
Empresa também busca bilhões no mercado
A DeepSeek retomou recentemente conversas para uma nova rodada de financiamento.
A companhia busca levantar aproximadamente US$ 7,4 bilhões a US$ 8 bilhões, em uma operação que pode avaliá-la perto de US$ 74 bilhões.
Grande parte dessa necessidade de capital está relacionada justamente à expansão da infraestrutura computacional.
Construir grandes modelos é caro.
Operá-los para milhões de usuários pode ser ainda mais.
Data centers, energia, aceleradores, redes de alta velocidade e sistemas de refrigeração passaram a representar alguns dos maiores investimentos da nova economia da IA.
Mongólia Interior virou peça da estratégia chinesa
A localização do novo centro de dados também não é coincidência.
A China vem transferindo parte de sua infraestrutura computacional para regiões onde energia e terrenos são mais abundantes e baratos.
Essa estratégia está associada ao programa Eastern Data, Western Compute, que busca levar cargas computacionais para áreas do interior e do oeste do país.
Ulanqab tornou-se um dos polos dessa expansão.
A Mongólia Interior já atraiu dezenas de bilhões de dólares em projetos relacionados a capacidade computacional e inteligência artificial.
Para cargas que não exigem proximidade física imediata com grandes centros urbanos, construir data centers nessas regiões pode reduzir custos significativamente.
China tenta criar uma cadeia completa de IA
O projeto da DeepSeek ajuda a visualizar uma estratégia industrial muito maior.
A China não quer apenas possuir seus próprios chatbots.
O objetivo é construir uma cadeia tecnológica completa.
Isso inclui modelos de IA chineses, chips projetados por empresas chinesas, fabricação doméstica, memória, servidores, sistemas de interconexão, software, data centers e energia.
DeepSeek ocupa uma parte dessa cadeia.
Huawei ocupa outra.
Empresas como SMIC entram na fabricação de semicondutores.
O desafio é aproximar o desempenho desse ecossistema daquele construído ao redor de Nvidia, TSMC e outras empresas líderes mundiais.
Huawei já prepara próximas gerações
O Ascend 950DT não é o fim do roteiro.
Huawei planeja lançar o Ascend 960 no quarto trimestre de 2027, prometendo aproximadamente o dobro de capacidade computacional, memória e interconexão em relação à geração 950.
Depois deverá chegar o Ascend 970, previsto para o final de 2028.
A estratégia é manter um ciclo aproximadamente anual de evolução.
Se conseguir executar esse roteiro e ampliar sua capacidade de fabricação, a Huawei poderá transformar o Ascend de uma alternativa imposta pelas sanções em um concorrente estrutural no mercado global de aceleradores de IA.
O pedido é enorme, mas ainda não significa independência da Nvidia
A imagem que resume o episódio afirmando que “chips chineses ganham espaço na inteligência artificial” está correta.
Mas o contexto revela uma história ainda mais interessante.
A DeepSeek não está abandonando imediatamente a Nvidia.
Ela está construindo uma infraestrutura híbrida na qual chips americanos continuam fundamentais para determinadas tarefas enquanto hardware chinês assume uma parcela crescente da operação diária dos modelos.
O grande teste será o treinamento.
Se futuras gerações Ascend conseguirem executar de maneira competitiva não apenas inferência, mas também o treinamento completo dos modelos de fronteira chineses, a dependência tecnológica poderá cair significativamente.
Até lá, o megapedido da DeepSeek representa um marco importante, mas não o fim da Nvidia na China.
Representa algo talvez mais estratégico:
o início de uma infraestrutura de IA chinesa grande o suficiente para funcionar cada vez mais com suas próprias tecnologias.



