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Gatik capta US$ 200 milhões para ampliar operação comercial de caminhões autônomos

Rodada liderada pelo fundo soberano do Catar e pela Koch Disruptive Technologies vai financiar a expansão da frota sem motorista. Startup já acumula mais de US$ 600 milhões em contratos e pretende passar de dezenas para milhares de caminhões autônomos nos próximos anos.

A corrida pela automação do transporte de cargas está deixando a fase dos projetos experimentais para entrar em uma etapa de expansão comercial. A Gatik anunciou uma rodada Série D de US$ 200 milhões para acelerar sua operação de caminhões autônomos, utilizados principalmente no transporte de mercadorias entre centros de distribuição e lojas.

O investimento foi coliderado pela Qatar Investment Authority (QIA), fundo soberano do Catar, e pela Koch Disruptive Technologies. Também participaram Millennium Management, ARK Invest, Intact Private Capital, Arca Continental e outros investidores.

A rodada é a maior já realizada pela Gatik e leva o total captado pela companhia desde 2019 para aproximadamente US$ 500 milhões. A empresa não revelou sua avaliação de mercado.

Mais importante que o tamanho do aporte, entretanto, é o estágio em que a empresa afirma estar. A Gatik já opera caminhões totalmente autônomos em redes logísticas comerciais e agora pretende utilizar o novo capital para aumentar a frota, contratar profissionais, investir em tecnologia e entrar em novos mercados.

Mais de US$ 600 milhões em contratos

A Gatik informa possuir atualmente mais de US$ 600 milhões em receita contratada, indicador que mostra como a companhia tenta se diferenciar de empresas de veículos autônomos ainda concentradas em testes.

A startup também afirma ter completado 85 mil entregas totalmente sem motorista, mantendo índice de 99% de pontualidade em suas operações. Há uma divergência entre divulgações recentes: o QIA cita mais de 100 mil pedidos autônomos, enquanto o comunicado da própria Gatik e a Reuters registram 85 mil.

Os veículos circulam atualmente em operações no Texas, Arizona e Arkansas, nos Estados Unidos, além do Canadá. Entre os clientes e parceiros estão grandes companhias de varejo, supermercados e produtos de consumo.

A estratégia é bastante diferente da corrida pelos robotáxis.

Em vez de tentar colocar carros autônomos em praticamente qualquer endereço de uma cidade, a Gatik concentra sua tecnologia em uma parte específica da cadeia logística conhecida como middle mile, ou milha intermediária.

O que é o “middle mile”

Imagine o caminho de um produto até chegar às mãos do consumidor.

Primeiro, mercadorias são transportadas por grandes distâncias até centros logísticos. Depois, precisam sair desses centros de distribuição e chegar às lojas, supermercados ou instalações menores. Finalmente ocorre a chamada last mile, a última etapa até o consumidor.

É justamente na etapa intermediária que a Gatik está concentrada.

Seus caminhões percorrem rotas regionais de alta frequência entre centros de distribuição e pontos comerciais, realizando trajetos repetitivos e previsíveis.

Essa escolha reduz parte da complexidade encontrada por robotáxis urbanos.

Um veículo de passageiros pode precisar atender milhares de destinos diferentes, enfrentar bairros desconhecidos e lidar com passageiros. Um caminhão utilizado em uma rede logística pode repetir determinadas rotas diversas vezes por dia.

Isso não elimina os desafios técnicos da direção autônoma, mas cria um ambiente operacional mais controlável.

PepsiCo amplia parceria com a Gatik

Um dos principais sinais da expansão comercial veio recentemente com a ampliação da parceria com a PepsiCo.

O acordo prevê o uso da tecnologia autônoma da Gatik dentro da rede logística da companhia nos Estados Unidos. A startup também trabalha em cadeias de abastecimento de grandes varejistas e empresas de bens de consumo.

Esse tipo de contrato é particularmente importante para o setor de caminhões autônomos.

Durante anos, uma das grandes dúvidas em torno dessa tecnologia era se ela conseguiria sair das demonstrações e produzir operações economicamente sustentáveis.

A existência de centenas de milhões de dólares em receita contratada indica que grandes empresas começam a considerar a automação como uma ferramenta efetiva para aumentar sua capacidade logística.

Gatik quer superar 100 caminhões ainda em 2026

Atualmente, a companhia possui dezenas de caminhões sem motorista em operação na América do Norte.

Segundo informações fornecidas pela Gatik à Reuters, o objetivo é ultrapassar 100 caminhões autônomos até o final de 2026. No horizonte de alguns anos, a ambição é muito maior: chegar a milhares de veículos.

Parte dos US$ 200 milhões será utilizada justamente para financiar essa expansão.

A empresa pretende ampliar a operação comercial e continuar investindo em tecnologia, infraestrutura e contratação de profissionais. Atualmente, possui cerca de 350 funcionários, e a expansão exigirá novas contratações em engenharia e operações.

Isso mostra uma característica importante da automação: retirar o motorista do veículo não significa eliminar toda a estrutura humana necessária para manter uma operação logística.

Ainda são necessários profissionais responsáveis por engenharia, manutenção, monitoramento, gerenciamento de frota, infraestrutura, atendimento aos clientes e desenvolvimento de software.

Inteligência artificial controla caminhões em rodovias e cidades

O sistema desenvolvido pela empresa é chamado de Gatik Driver.

A tecnologia combina inteligência artificial e diferentes componentes de percepção e controle para permitir que os caminhões trafeguem autonomamente tanto por rodovias quanto por vias urbanas.

A companhia afirma ter projetado sua arquitetura especificamente para o transporte comercial de cargas, em vez de adaptar uma plataforma originalmente criada para automóveis de passageiros.

Os veículos também trabalham com rotas dinâmicas.

Isso permite que clientes ajustem trajetos de acordo com mudanças na demanda, funcionamento dos centros de distribuição e necessidades de coleta ou entrega.

Essa flexibilidade será fundamental para determinar se caminhões autônomos conseguirão competir com operações tradicionais em grande escala.

Isuzu pode ajudar a levar tecnologia à produção em massa

Outro componente importante da estratégia é a industrialização dos veículos.

A Gatik trabalha com a japonesa Isuzu para desenvolver caminhões preparados para condução autônoma.

Segundo informações divulgadas pelo FreightWaves, os planos incluem produção em uma instalação na Carolina do Sul, com entrada em operação prevista para o final de 2027.

Essa etapa é crucial.

Uma coisa é instalar sensores e computadores em algumas dezenas de veículos utilizados em programas específicos. Outra é fabricar centenas ou milhares de caminhões com redundância de sistemas, confiabilidade industrial e manutenção padronizada.

Para transformar direção autônoma em uma indústria, será necessário aproximar cada vez mais empresas de software das montadoras tradicionais.

Catar aposta no futuro da logística autônoma

A participação da Qatar Investment Authority também chama atenção.

O QIA é o fundo soberano do Catar e administra investimentos internacionais em diferentes setores. Ao coliderar a rodada, o fundo está colocando capital diretamente em uma companhia americana que pretende transformar a infraestrutura logística.

Segundo o QIA, a aposta está relacionada ao potencial do transporte autônomo para aumentar a eficiência e a confiabilidade das cadeias de suprimentos.

O investimento também mostra como a corrida pelos veículos autônomos voltou a atrair grandes investidores.

Depois de anos de expectativas exageradas, atrasos tecnológicos e fechamento de diversas startups, o setor começa a se reorganizar ao redor de aplicações comerciais mais específicas.

Caminhões podem avançar antes dos carros autônomos

A estratégia da Gatik levanta uma possibilidade interessante: caminhões autônomos utilizados em rotas comerciais específicas podem ganhar escala antes de carros capazes de dirigir autonomamente em qualquer lugar.

A razão está justamente na previsibilidade.

Redes logísticas possuem trajetos repetitivos, horários definidos, pontos conhecidos de carga e descarga e demanda relativamente previsível.

Além disso, existe um incentivo econômico muito claro.

Empresas querem reduzir custos de transporte, aumentar disponibilidade de veículos e manter mercadorias circulando durante mais horas do dia.

A escassez de motoristas profissionais em determinados mercados também aumenta o interesse por automação.

Por outro lado, a segurança continua sendo o principal obstáculo. Caminhões são veículos grandes e pesados, o que torna qualquer falha potencialmente grave. Reguladores e clientes precisarão ter confiança de que os sistemas conseguem operar consistentemente em situações inesperadas.

De projeto tecnológico para negócio de logística

A rodada de US$ 200 milhões representa, portanto, mais do que financiamento para desenvolver um sistema de direção autônoma.

A Gatik precisa demonstrar agora que consegue transformar dezenas de caminhões em centenas e depois milhares, preservando segurança, confiabilidade e vantagem econômica.

Esse é justamente o ponto em que muitas startups de veículos autônomos encontraram dificuldades.

A tecnologia pode funcionar tecnicamente e ainda assim ser cara demais para operar comercialmente.

No caso da Gatik, os mais de US$ 600 milhões em contratos ajudam a sustentar a tese de que existe demanda empresarial. A próxima etapa será provar que essa demanda pode ser atendida em grande escala.

Se conseguir, a transformação poderá ser significativa para o setor logístico.

A automação não necessariamente começará com um carro sem motorista levando passageiros pelas ruas de qualquer cidade. Ela pode ganhar escala primeiro em um cenário muito menos visível para o consumidor: caminhões transportando silenciosamente produtos entre centros de distribuição e lojas, repetindo as mesmas rotas todos os dias sem ninguém ao volante.

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