
Uma técnica de ataque considerada extremamente difícil de executar remotamente voltou a chamar atenção da comunidade de cibersegurança. Pesquisadores demonstraram que é possível explorar execução especulativa de processadores para extrair informações de outros ambientes executados no Cloudflare Workers, plataforma de computação de borda da Cloudflare.
No experimento, os pesquisadores conseguiram recuperar informações a uma velocidade de até 12 bits por segundo, mantendo aproximadamente 99% de precisão. A demonstração chegou a permitir a recuperação de um JWT (JSON Web Token) pertencente a outro Worker colocado no mesmo ambiente computacional.
A pesquisa foi conduzida em 2024 e no início de 2025 e divulgada pela Cloudflare em 19 de agosto de 2026. A empresa afirma que as técnicas demonstradas já estão mitigadas em produção e que não encontrou indícios de exploração ativa nos últimos três anos.
Spectre explora comportamento interno dos processadores
O problema está relacionado ao Spectre, classe de ataques revelada originalmente em 2018 e baseada em um recurso utilizado por processadores modernos chamado execução especulativa.
Para aumentar o desempenho, CPUs tentam prever quais operações provavelmente serão necessárias e começam a executá-las antecipadamente.
Quando a previsão está errada, os resultados são descartados. Entretanto, pequenas alterações deixadas na memória cache podem revelar informações sobre aquilo que foi processado.
Um invasor pode medir essas diferenças de tempo e utilizá-las como um canal lateral para reconstruir informações que teoricamente deveriam estar isoladas.
Cloudflare já possuía defesa contra ataques Spectre
O cenário é especialmente relevante porque o Cloudflare Workers permite que códigos pertencentes a diferentes clientes sejam executados utilizando infraestrutura compartilhada.
Para proteger esses ambientes, a empresa utiliza diferentes camadas de isolamento.
Depois de pesquisas realizadas em 2021, a Cloudflare implementou uma tecnologia chamada Dynamic Process Isolation (DyPrIs). O mecanismo identifica scripts considerados potencialmente maliciosos e os transfere para processos separados.
Entretanto, novas técnicas desenvolvidas nos últimos anos levaram pesquisadores a reavaliar se ataques Spectre ainda poderiam funcionar contra a plataforma.
E os resultados mostraram que havia espaço para melhorar as proteções.
Ataque funcionou em ambiente de produção
Uma das partes mais importantes da pesquisa foi justamente conseguir executar a técnica em condições semelhantes às encontradas em produção.
Ataques por canal lateral enfrentam interferências provocadas por outros processos, interrupções do sistema, trocas de contexto e limitações dos temporizadores.
O Cloudflare Workers também restringe deliberadamente mecanismos que poderiam facilitar medições extremamente precisas.
Mesmo assim, os pesquisadores encontraram novas técnicas para estabilizar o ataque.
O resultado foi um canal capaz de extrair informações a até 12 bits por segundo com 99% de precisão.
Embora essa velocidade pareça extremamente baixa, ataques desse tipo não precisam necessariamente transferir arquivos grandes. Credenciais, chaves, tokens e outros pequenos segredos podem ter enorme valor mesmo quando recuperados lentamente.
JWT foi recuperado durante demonstração
Os pesquisadores foram além da prova teórica.
O trabalho mostrou que o ataque poderia ser utilizado para localizar informações na memória e realizar leituras de endereços arbitrários em determinadas condições.
A demonstração incluiu a recuperação de um JWT pertencente a um Worker vítima colocado junto ao Worker controlado pelos pesquisadores.
Tokens JWT são amplamente utilizados por aplicações para autenticação e autorização de usuários e serviços. Dependendo da aplicação e das permissões associadas ao token, sua exposição pode permitir acesso indevido a recursos protegidos.
O experimento evidencia por que vulnerabilidades de isolamento entre diferentes clientes são particularmente sensíveis em plataformas de computação compartilhada.
Cloudflare reforçou as defesas
Depois dos resultados, a Cloudflare modificou sua arquitetura defensiva.
Entre as mudanças está uma atualização do Dynamic Process Isolation, além da integração do V8 Sandbox e de mecanismos adicionais de isolamento dentro dos próprios processos.
Em setembro de 2025, a companhia também implantou isolamento baseado em Memory Protection Keys (MPK).
A tecnologia permite dividir a memória de um processo em diferentes domínios de proteção e controlar quais regiões podem ser acessadas.
Com isso, heaps pertencentes a diferentes Workers podem receber proteções adicionais mesmo quando compartilham um processo.
Não há evidências de ataques reais
Apesar do impacto técnico da pesquisa, existe uma informação fundamental para interpretar o caso corretamente.
A Cloudflare afirma que o ataque demonstrado já foi mitigado e que não encontrou indicadores de exploração ativa da técnica nos últimos três anos.
Portanto, a pesquisa não representa a descoberta de uma campanha atual roubando informações de clientes do Cloudflare Workers.
Ela demonstra que novas técnicas conseguiram superar parte das proteções existentes anteriormente e serviram para fortalecer a arquitetura da plataforma.
Spectre continua sendo desafio anos depois de sua descoberta
O estudo também mostra por que Spectre permanece relevante quase uma década depois de sua divulgação.
Não se trata simplesmente de uma vulnerabilidade convencional que pode ser eliminada com uma única atualização de software.
O problema está relacionado ao próprio funcionamento de otimizações utilizadas por processadores modernos.
Isso obriga fabricantes de chips, sistemas operacionais, navegadores e plataformas de nuvem a desenvolver sucessivas camadas de mitigação.
O caso do Cloudflare Workers reforça justamente esse ponto: uma defesa criada para técnicas conhecidas pode precisar ser revista quando pesquisadores encontram novas maneiras de tornar ataques especulativos mais confiáveis.
Para provedores de nuvem e edge computing, o desafio é ainda maior. A eficiência desses serviços depende da capacidade de executar cargas de diferentes clientes sobre infraestrutura compartilhada — justamente o cenário em que uma falha de isolamento pode produzir consequências mais sérias.
A pesquisa mostra que a corrida entre novas técnicas de ataque e mecanismos de proteção continua acontecendo até mesmo nas camadas mais profundas da computação moderna.



