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A Meta cortou a segurança para financiar a IA. Quatro meses depois, admitiu que a aposta não acelerou

Por RICARDO BRASIL

Em maio, a Meta demitiu cerca de 8 mil pessoas e começou pela integridade e pela cibersegurança para bancar até US$ 145 bilhões em IA. Em 2 de julho, Zuckerberg admitiu aos funcionários que os agentes de IA não avançaram como esperado. Um estudo de caso sobre por que a função que protege a empresa é sempre a primeira a ser cortada, e por que no Brasil, com a LGPD em vigor, esse corte custa mais caro.

 

Quando o Titanic deixou Southampton em abril de 1912, levava a bordo cerca de 2.200 pessoas e botes salva-vidas para pouco mais de mil. Não foi esquecimento. Foi decisão. Os botes ocupavam espaço no convés de passeio, atrapalhavam a vista e destoavam da imagem de um navio vendido como o mais seguro já construído. As regras da época exigiam botes conforme a tonelagem do navio, não conforme o número de gente a bordo, e o Titanic cumpria a regra com folga. No papel, estava tudo certo. Bote salva-vidas é peso morto até a noite em que ele é a única coisa que importa.

Cento e catorze anos depois, a Meta, dona do Facebook, do Instagram e do WhatsApp, tomou uma decisão com a mesma lógica. Para financiar sua aposta em inteligência artificial, cortou primeiro as equipes que protegiam a casa. E, quatro meses depois, o próprio Mark Zuckerberg admitiu que a aposta não chegou onde ele esperava.

As primeiras cabeças a rolar foram as que cuidavam da casa

Em 20 de maio de 2026, a Meta notificou cerca de 8 mil funcionários, aproximadamente 10% de um quadro de 80 mil pessoas, segundo reportagens da CNBC publicadas naquele dia. O corte foi apresentado como necessário para bancar a virada para IA. No memorando interno, Zuckerberg escreveu que “o sucesso não é garantido” na era da IA.

O detalhe que merece atenção não é o número. É o mapa do corte. Segundo apuração da Reuters e da TechCrunch, as áreas mais atingidas foram as equipes de integridade, a cibersegurança e o design de conteúdo. As áreas preservadas foram a infraestrutura de IA, os modelos de fundação e a monetização de IA. Em paralelo, cerca de 7 mil funcionários foram remanejados para times novos de IA, e 6 mil contratações já planejadas foram canceladas.

Traduzindo para o organograma: a empresa demitiu quem defendia a plataforma e blindou quem constrói a aposta. Cortou os botes para pagar o motor novo.

O tamanho da aposta

Vale medir o peso do que está sendo financiado com esse corte. A Meta projeta gastar até US$ 145 bilhões em infraestrutura de IA só neste ano, segundo números citados pela Reuters. É parte de um desembolso que, somado ao das outras gigantes de tecnologia, ultrapassa US$ 700 bilhões em 2026.

Para dar escala, US$ 145 bilhões em um único ano superam, com sobra, o orçamento anual de ministérios inteiros do governo brasileiro. Uma empresa, uma linha de investimento. Diante de uma cifra dessas, cortar alguns milhares de salários da área de segurança vira detalhe contábil. E é exatamente aí que mora o risco: a função que protege a empresa é barata o suficiente para ser sacrificada e invisível o suficiente para ninguém sentir falta, até sentir.

Quatro meses depois, o dono admitiu: errei!

Aqui a história ganha o ingrediente que transforma uma decisão discutível em aula de governança. Em 2 de julho de 2026, numa reunião interna com os funcionários cujas gravações foram ouvidas pela Reuters, Zuckerberg disse que o desenvolvimento dos agentes de IA nos quatro meses anteriores “não acelerou da forma que esperávamos”. Ele acrescentou que a reorganização não saiu tão “limpa” quanto planejado e que as apostas na nova estrutura “ainda não deram fruto”, embora ele espere resultados relevantes em três a seis meses.

Leia de novo, na ordem dos fatos. Primeiro cortou a segurança e a integridade para financiar os agentes de IA. Depois admitiu que os agentes de IA não avançaram como esperado. A conta do corte já foi paga. O retorno prometido ainda é uma promessa, com prazo renovado para daqui a alguns meses.

Nenhum conselho aprovaria, escrito no papel, “vamos demitir a segurança para financiar algo que talvez funcione no semestre que vem”. Mas foi isso que aconteceu, embalado em linguagem de urgência competitiva.

Por que a segurança é sempre a primeira da fila do corte

Não é maldade nem descuido. É a natureza da função. Segurança da informação, integridade e conformidade são centros de custo. Quando funcionam, não geram manchete, não produzem receita visível, não aparecem no slide de crescimento. O sucesso desses times é a ausência de desastre, e ausência não entra em planilha de resultado.

O diretor de segurança da informação, vive esse paradoxo todo ano no orçamento: é cobrado a provar o retorno de algo cujo maior valor é o incidente que não aconteceu. Já a aposta em IA vende futuro, anima o mercado e rende aplauso em conferência. Numa disputa por orçamento entre “evitar um problema que talvez não venha” e “construir a próxima fronteira”, a segunda sempre parece mais estratégica. Parece.

A ironia é que os dois assuntos estão amarrados. Adotar IA em escala aumenta a superfície de ataque, multiplica os pontos por onde dados sensíveis circulam e cria vetores de risco que antes nem existiam. Cortar a segurança no exato momento em que se amplia o uso de IA é abrir mais janelas na casa enquanto se demite o vigia.

O elefante brasileiro na sala

Para o gestor brasileiro, essa história não é fofoca do Vale do Silício. É espelho.

O Brasil vive sua própria corrida de IA. Segundo o Relatório Setorial 2025 da Brasscom, associação das empresas de tecnologia, o país deve receber cerca de R$ 2 trilhões em investimentos digitais entre 2026 e 2029, dos quais aproximadamente R$ 736 bilhões em inteligência artificial. A pressão sobre diretores de tecnologia e conselhos para “fazer alguma coisa com IA” nunca foi tão alta. Junto com ela, vem a tentação de achar o dinheiro no lugar mais fácil: o time de segurança e conformidade, que ninguém entende direito e cujo corte ninguém percebe no trimestre.

Só que aqui o roteiro tem uma cláusula que os Estados Unidos não têm com a mesma força. A Lei Geral de Proteção de Dados (LGPD, Lei 13.709/2018) está em vigor, e a Autoridade Nacional de Proteção de Dados (ANPD) já sinalizou disposição de aplicar sanções relevantes. O artigo 52 da lei prevê multa de até 2% do faturamento da empresa no Brasil, limitada a R$ 50 milhões por infração. Cortar a área que garante a conformidade com essa lei, para financiar a IA que amplia o risco de vazamento, é a definição contábil de economizar na tranca da porta enquanto se deixa a janela escancarada.

O que o conselho deveria perguntar antes de assinar o corte

O aprendizado da Meta não é “não invista em IA”. Investir virou obrigação, e quem ficar de fora vai pagar caro por isso. O ponto é de onde sai o dinheiro e o que se sacrifica no caminho.

Antes de aprovar um corte que financia IA (ou menosprezar investimento) à custa de segurança, integridade ou conformidade, vale ao conselho fazer três perguntas simples.

A primeira: esse corte reduz nossa capacidade de responder a um incidente que a própria adoção de IA torna mais provável?

A segunda: se a aposta em IA levar seis, doze ou dezoito meses a mais do que o prometido, como a Meta acaba de admitir que pode acontecer, a empresa atravessa esse intervalo sem a proteção da qual abriu mão?

A terceira: estamos tratando segurança e IA como orçamentos concorrentes, quando na prática um é condição do outro?

Aposta em IA e função de segurança não são um cabo de guerra. São o motor e o freio do mesmo carro. Ninguém acelera com confiança num veículo de onde acabou de remover os freios para deixá-lo mais leve.

Então a pergunta que fica para 2026 não é se sua empresa vai apostar em IA. Essa resposta já está dada. A pergunta é outra, e é melhor respondê-la antes de precisar: quando o iceberg aparecer, e ele sempre aparece, quantos botes você ainda vai ter no convés?

 

Até o próximo Café com Bytes, com ceticismo saudável e café bem passado.

 

Ricardo Brasil | Especialista em IA Responsável e Diretor de TI na GWS Engenharia — Colunista Café com Bytes | Tecnologia | Inteligência Artificial

 

Sobre o Autor

Ricardo Brasil é Diretor de TI e Gestão Corporativa da GWS Engenharia, especialista em IA Responsável, transformação digital e governança de TI. É colunista da série Café com Bytes, onde escreve semanalmente sobre tecnologia, inteligência artificial e seus impactos no ambiente corporativo brasileiro.

Ricardo Brasil

Executivo de IA e Transformação Digital | Colunista Café com Bytes Com mais de 20 anos liderando inovação e transformação em larga escala nos EUA e América Latina, trago para o Café com Bytes uma perspectiva estratégica sobre o futuro da IA corporativa. Minha jornada começou em cibersegurança, onde construí expertise em gestão de riscos e governança de TI, alicerces que hoje orientam minha atuação em IA Responsável e Agentic AI. Foi na Microsoft que adquiri minha experiência mais significativa em IA, desenvolvendo frameworks de governança e estratégias empresariais que garantem que a IA seja implantada com impacto, ética e escala. Sou autor do livro “5 Passos para a IA Responsável”, onde sistematizo essa abordagem prática para implementação ética de IA nas organizações. Já liderei equipes globais de 500+ profissionais e conduzi integrações pós-M&A e programas de excelência operacional. Combino visão estratégica com execução disciplinada, sempre traduzindo tecnologias emergentes em resultados de negócio mensuráveis. Aqui no Café com Bytes, compartilho insights práticos sobre IA corporativa, governança tecnológica, cibersegurança e liderança em transformação digital para executivos que precisam navegar a revolução da IA com confiança, segurança e clareza estratégica.

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