
O avanço da inclusão digital no Brasil transformou a rotina da população idosa. Se há poucos anos o acesso à internet ainda era limitado entre pessoas com mais de 60 anos, hoje smartphones, aplicativos bancários, redes sociais e serviços públicos digitais fazem parte do cotidiano de milhões de brasileiros dessa faixa etária.
No entanto, o mesmo movimento que promove autonomia, aproxima famílias e facilita o acesso a serviços também abriu espaço para um crescimento preocupante dos golpes digitais direcionados aos idosos.
Um crescimento histórico da conectividade
Dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (PNAD TIC), do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), mostram que o número de idosos conectados à internet praticamente quadruplicou em menos de uma década.
Entre 2016 e 2024, a quantidade de brasileiros com 60 anos ou mais que utilizam a internet passou de 6,5 milhões para 24,5 milhões de pessoas — um crescimento de 278%. No mesmo período, a proporção de idosos conectados subiu de 44,8% para 69,8% da população dessa faixa etária. Em 2025, esse percentual ultrapassou 74%, confirmando que a inclusão digital desse público continua em ritmo acelerado.
O celular tornou-se o principal meio de acesso, sendo utilizado diariamente pela grande maioria dos idosos para conversar com familiares, realizar pagamentos via Pix, acessar bancos, marcar consultas médicas e utilizar serviços públicos.
Essa transformação representa uma importante conquista social, reduzindo barreiras geográficas e aumentando a independência da população idosa.
O outro lado da transformação digital
Enquanto cresce o número de idosos conectados, especialistas em segurança digital observam um fenômeno paralelo: o aumento dos golpes virtuais direcionados justamente a esse público.
Criminosos exploram fatores como menor familiaridade com tecnologia, confiança em contatos pessoais, dificuldade para identificar perfis falsos e desconhecimento sobre técnicas modernas de engenharia social.
Segundo a Federação Brasileira de Bancos (Febraban), os golpes mais comuns contra idosos incluem:
- falso funcionário de banco;
- golpe do Pix;
- clonagem de WhatsApp;
- links falsos enviados por SMS ou e-mail (phishing);
- falsa central de atendimento;
- falso familiar pedindo dinheiro;
- falsas promoções e lojas virtuais.
Na maioria dos casos, os criminosos utilizam técnicas de manipulação emocional para induzir decisões rápidas, reduzindo o tempo de reflexão da vítima.
Um alvo considerado mais vulnerável
Especialistas explicam que o problema não está na idade em si, mas no processo recente de adaptação ao ambiente digital.
Enquanto pessoas mais jovens cresceram convivendo com golpes online, verificações em duas etapas e autenticação digital, muitos idosos passaram a utilizar essas ferramentas apenas nos últimos anos.
Além disso, a digitalização acelerada de bancos, serviços públicos e comércio eletrônico obrigou milhões de brasileiros a aprender novas tecnologias em um curto espaço de tempo.
O resultado é um cenário no qual o acesso cresce mais rapidamente do que a educação digital.
A sofisticação dos golpes
Outro fator que amplia o risco é a evolução das fraudes.
Golpes que antes eram facilmente identificáveis hoje utilizam inteligência artificial, números clonados, logotipos oficiais, mensagens personalizadas e até chamadas de vídeo falsas.
Em muitos casos, os criminosos já possuem informações básicas da vítima obtidas em vazamentos de dados, aumentando a sensação de legitimidade da abordagem.
Esse tipo de engenharia social tornou-se uma das principais armas do cibercrime moderno.
Educação digital é a principal proteção
Especialistas defendem que o combate aos golpes deve ir além da tecnologia.
Assim como campanhas ensinaram a população a utilizar caixas eletrônicos décadas atrás, hoje torna-se necessário ampliar programas de educação digital voltados à terceira idade.
Entre as principais recomendações estão:
- desconfiar de qualquer pedido urgente envolvendo dinheiro;
- nunca compartilhar senhas ou códigos enviados por SMS;
- confirmar solicitações financeiras por outro canal de comunicação;
- manter aplicativos atualizados;
- ativar autenticação em dois fatores;
- conversar com familiares antes de realizar transferências de alto valor.
Instituições financeiras também vêm investindo em sistemas antifraude, inteligência artificial e mecanismos de confirmação adicional para operações consideradas de maior risco.
Inclusão e segurança precisam caminhar juntas
A inclusão digital da população idosa representa uma das maiores transformações sociais dos últimos anos no Brasil.
Ela proporciona autonomia, acesso à informação, inclusão financeira e fortalecimento dos vínculos familiares.
Por outro lado, esse avanço também evidencia um desafio crescente: garantir que o aumento da conectividade seja acompanhado por educação digital, segurança cibernética e conscientização.
O mesmo celular que aproxima avós e netos também pode ser a porta de entrada para fraudes cada vez mais sofisticadas.
O desafio da sociedade não é reduzir o acesso dos idosos à tecnologia, mas garantir que eles possam utilizá-la com confiança, autonomia e proteção.



