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O vírus que não é vírus: o golpe do WhatsApp que assume seu computador com um programa legítimo

Por RICARDO BRASIL

Chegou no seu WhatsApp, veio de um contato que você conhece e tem cara de boleto atrasado. Você clica, nada visível acontece, e o dia segue. Nos bastidores, um script acabou de instalar no seu computador um programa de administração remota perfeitamente legítimo, agora apontando para o servidor de um criminoso. Não houve vírus. Houve confiança.

Em maio de 2000, milhões de pessoas no mundo inteiro receberam um e-mail com o assunto ILOVEYOU e um anexo chamado LOVE-LETTER-FOR-YOU.TXT.vbs. Quem clicou abriu, sem saber, um script em Visual Basic que se reenviava para toda a lista de contatos e corrompia arquivos pelo caminho. Em poucos dias, dezenas de milhões de máquinas estavam infectadas e os prejuízos chegaram à casa dos bilhões de dólares. O golpe funcionou por um motivo só: a carta de amor parecia vir de alguém conhecido.

Vinte e seis anos depois, o roteiro é quase idêntico, e isso devia nos envergonhar mais do que assustar. Mudou o mensageiro, que agora é o WhatsApp no lugar do e-mail. Mudou o disfarce, que agora é um documento financeiro no lugar de uma declaração de amor. A extensão do arquivo, no entanto, é exatamente a mesma: ponto vbs.

O ataque que chega pelo número que você conhece

Em 22 de junho de 2026, a Kaspersky publicou a análise de uma campanha que estava, e segue, ativa, distribuindo arquivos maliciosos por mensagens de WhatsApp. O detalhe que torna o golpe eficiente é simples: as mensagens saem de contas que já foram invadidas. Ou seja, o anexo chega do número de alguém da sua agenda, e a sua primeira linha de defesa, a desconfiança de remetente desconhecido, simplesmente não dispara.

O arquivo é um VBScript fortemente ofuscado, com nome de documento de negócio, como Financial Reports.vbs, Account Statement.vbs ou Acknowledgment of Debt.vbs. Há versões nomeadas em português, francês, alemão e malaio, sinal de uma operação global. No WhatsApp Web, a vítima baixa e abre o arquivo achando que é um documento. No WhatsApp Desktop, o próprio processo do aplicativo dispara o WScript.exe do Windows. A partir daí, o script baixa dois componentes adicionais: um mexe no controle de contas de usuário do sistema, o outro busca um pacote compactado com o instalador do ManageEngine Endpoint Central. Pronto. Você acaba de hospedar um administrador remoto que não trabalha para você.

Por que instalar um programa de verdade é mais esperto que soltar um vírus

Aqui mora a parte engenhosa, e perversa. O ManageEngine Endpoint Central é uma ferramenta legítima de gestão remota, usada todos os dias por equipes de TI para aplicar correções, dar suporte e monitorar máquinas. Justamente por ser legítima, ela costuma estar na lista de programas confiáveis do antivírus e passa longe da análise comportamental. O atacante não precisa escrever um cavalo de Troia: ele instala um software de verdade e o configura para responder ao servidor dele. É o que o jargão chama de living off the land, viver da própria terra, usando as ferramentas do ambiente contra o próprio ambiente.

Os pesquisadores notaram um detalhe revelador: os scripts vêm recheados de comentários e metadados que imitam componentes legítimos do Windows Update, muitos deles escritos em chinês. A campanha ainda não tem autoria confirmada, mas a Kaspersky encontrou sobreposição de infraestrutura com atividades anteriores ligadas ao Gh0st RAT e ao ValleyRAT. Sobre o que fazer, o alerta foi direto: arquivos de script e executáveis “não devem ser abertos sem que a legitimidade seja verificada de forma independente”. E há um agravante: o WhatsApp não passa pelo filtro de e-mail da sua empresa, onde mora boa parte da defesa contra anexos. A mensagem entra por uma porta que ninguém configurou para vigiar.

O elefante brasileiro na sala

O Brasil está na lista de países atingidos, ao lado de Malásia, Índia, México, Cingapura, Reino Unido, Espanha, Taiwan, Austrália, Rússia e Vietnã, e ninguém devia se surpreender. Aqui, o WhatsApp não é um aplicativo de conversa, é a infraestrutura informal do comércio. Fechamos negócio, mandamos nota fiscal, cobramos cliente e aprovamos pagamento por mensagem. A maior concentração de vítimas está na Malásia, perto de 80% dos casos registrados, mas a lógica que faz o golpe funcionar lá é a mesma que nos torna alvo: um país que vive de WhatsApp confia demais no anexo que vem do contato certo.

Some a isso o nosso velho conhecido, o shadow IT. O computador da recepção, a máquina do financeiro que ainda roda Windows antigo, o notebook pessoal que o funcionário usa para trabalhar. Nenhum deles passou pela conversa sobre desligar o Windows Script Host. E a Lei Geral de Proteção de Dados (LGPD), com a Autoridade Nacional de Proteção de Dados (ANPD) de olho, não vai aceitar foi um arquivo que chegou pelo WhatsApp como justificativa para o vazamento de dados de um cliente. Acesso remoto não autorizado a uma máquina com dados pessoais é incidente que precisa ser tratado, comunicado e, de preferência, evitado.

O que muda para o gestor de TI em 2026

A primeira é de política. Bloqueie a execução de arquivos de script no endpoint. Os formatos vbs, vbe, js, bat, cmd e ps1 não têm utilidade nenhuma na mão do usuário comum, e desativar o Windows Script Host onde não existe caso de uso legítimo fecha a porta principal desse ataque.

A segunda é de inventário. Trate qualquer instalação de ManageEngine, ou de qualquer ferramenta de acesso remoto, que não tenha saído da sua equipe como incidente confirmado, não como curiosidade. Se a TI não instalou, alguém instalou por você, e não foi para ajudar.

A terceira é de cultura. Treine as pessoas para uma regra de bolso que cabe em uma frase: documento de verdade não chega em arquivo de script. Boleto é PDF, planilha é XLSX, contrato é DOCX. Se veio com final ponto vbs, mesmo do contato mais querido, confirme por outro canal antes de clicar.

A pergunta que fica

Gastamos duas décadas e fortunas erguendo muralhas em volta do e-mail corporativo. Enquanto isso, mudamos boa parte da nossa vida profissional para um aplicativo de mensagem que nunca foi pensado como porta de entrada de documento de trabalho, e o tratamos com a intimidade de uma conversa de família. O criminoso percebeu isso antes de nós.

A pergunta não é se o seu antivírus consegue barrar um vírus, e sim se a sua empresa percebe quando o invasor entra usando uma ferramenta legítima, pela porta que você esqueceu de trancar.

Até o próximo Café com Bytes, com ceticismo saudável e café bem passado.

Ricardo Brasil

Especialista em IA Responsável e Diretor de TI na GWS Engenharia

Colunista Café com Bytes  |  Tecnologia  |  Inteligência Artificial

Sobre o Autor

Ricardo Brasil é Diretor de TI e Gestão Corporativa da GWS Engenharia, especialista em IA Responsável, transformação digital e governança de TI. É colunista da série Café com Bytes, onde escreve semanalmente sobre tecnologia, inteligência artificial e seus impactos no ambiente corporativo brasileiro.

Fontes

Kaspersky / Securelist, análise da campanha de VBScript via WhatsApp (22 de junho de 2026); Bill Toulas, Bleeping Computer (22 de junho de 2026); Ravie Lakshmanan, The Hacker News (23 de ju

Ricardo Brasil

Executivo de IA e Transformação Digital | Colunista Café com Bytes Com mais de 20 anos liderando inovação e transformação em larga escala nos EUA e América Latina, trago para o Café com Bytes uma perspectiva estratégica sobre o futuro da IA corporativa. Minha jornada começou em cibersegurança, onde construí expertise em gestão de riscos e governança de TI, alicerces que hoje orientam minha atuação em IA Responsável e Agentic AI. Foi na Microsoft que adquiri minha experiência mais significativa em IA, desenvolvendo frameworks de governança e estratégias empresariais que garantem que a IA seja implantada com impacto, ética e escala. Sou autor do livro “5 Passos para a IA Responsável”, onde sistematizo essa abordagem prática para implementação ética de IA nas organizações. Já liderei equipes globais de 500+ profissionais e conduzi integrações pós-M&A e programas de excelência operacional. Combino visão estratégica com execução disciplinada, sempre traduzindo tecnologias emergentes em resultados de negócio mensuráveis. Aqui no Café com Bytes, compartilho insights práticos sobre IA corporativa, governança tecnológica, cibersegurança e liderança em transformação digital para executivos que precisam navegar a revolução da IA com confiança, segurança e clareza estratégica.

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