
A Prefeitura do Rio de Janeiro, por meio da IplanRio, se viu no centro de uma polêmica internacional após o lançamento do modelo de inteligência artificial Rio 3.5 Open. Pesquisadores e desenvolvedores acusaram o órgão municipal de reutilizar modelos chineses de código aberto sem atribuição adequada, levando a própria instituição a admitir um erro operacional na publicação do projeto.
O caso ganhou repercussão após análises independentes indicarem que o modelo disponibilizado publicamente era composto por uma combinação de tecnologias já existentes. Segundo a startup chinesa Nex-AGI, o Rio 3.5 Open seria formado por cerca de 60% do modelo Nex N2 Pro e 40% do Qwen 3.5-397B, desenvolvido pela Alibaba.
A controvérsia não está necessariamente no uso dos modelos. Tanto o Nex N2 Pro quanto o Qwen possuem licenças abertas que permitem modificação e redistribuição. O principal questionamento da comunidade foi a ausência inicial de créditos adequados à Nex-AGI e a forma como o projeto foi apresentado ao público.
Após as críticas, a IplanRio atualizou a documentação do projeto na plataforma Hugging Face e reconheceu que houve uma falha humana durante o processo de publicação. Segundo o órgão, arquivos de teste da fusão preliminar dos modelos foram enviados por engano, em vez da versão final refinada. Isso fez com que o sistema exibisse características do modelo original da Nex-AGI.
Em nota oficial, a IplanRio afirmou que o cronograma previa uma etapa posterior de refinamento, conhecida como on-policy distillation, destinada a adaptar a IA às necessidades específicas da administração pública carioca. A instituição também informou que revisou seus processos internos de governança e auditoria para evitar novos incidentes.
O episódio reacendeu discussões sobre transparência e atribuição no ecossistema de inteligência artificial de código aberto. Embora o reaproveitamento de modelos seja prática comum na indústria, especialistas destacam que projetos baseados em software livre exigem o devido reconhecimento aos desenvolvedores originais.
O projeto Rio 3.5 Open havia sido apresentado como uma iniciativa de soberania tecnológica, com o objetivo de reduzir a dependência de soluções proprietárias estrangeiras. Segundo a Prefeitura do Rio, o desenvolvimento custou aproximadamente R$ 500 mil, valor considerado significativamente inferior ao de plataformas comerciais equivalentes.
A estratégia de IA da cidade vai além do modelo generativo. A IplanRio já desenvolve projetos para atendimento ao cidadão, assistência social e análise de dados públicos, tendo recebido inclusive reconhecimento internacional por iniciativas voltadas à melhoria de serviços públicos por meio de inteligência artificial.
Especialistas observam que o caso ilustra um desafio crescente da era da IA generativa: diferenciar inovação genuína, adaptação de modelos existentes e comunicação transparente sobre o desenvolvimento tecnológico. Em um ecossistema baseado em colaboração aberta, a atribuição correta pode ser tão importante quanto o avanço técnico em si.
Apesar da controvérsia, o episódio também evidencia o avanço do setor público brasileiro no uso de inteligência artificial. O sucesso de iniciativas governamentais nessa área dependerá não apenas de desempenho técnico, mas também de boas práticas de transparência, governança e conformidade com as normas da comunidade global de código aberto.



